Monday, 12 December 2011

Barco negro

O barco negro é sobre a excentricidade do amor - ou o modo meio louco como o amor entre duas pessoas pode permanecer quando uma delas se vai embora. Utilizando a linguagem da psicanálise, o barco negro - o melhor fado já feito - é sobre a dissociação do amor, a simultaneidade insensata de predicado e sujeito: a contradição entre acção do homem (partir) e a sua condição (de amante); entre a leveza e o peso, como diria Kundera.



É sobre a peixeira que perde o pescador; ou seja, sobre a mulher que perde o amante mas não consegue perder o amor.

Saturday, 3 December 2011

Manoel

O Manoel de Oliveira afirmou que a literatura é muito superior ao cinema. Talvez não tenha afirmado, talvez tenha confessado ou, melhor ainda, talvez tenha sugerido. O verbo é indiferente, porque é conjugado em liberdade. Um homem que passou o tempo para a morte experiencia a verdadeira - a única - liberdade. Não é a treta da liberdade negativa, ou a liberdade liberal, essa possibilidade de liberdade que é menos livre que a vontade, mas a verdadeira liberdade - a liberdade de dizer palavras que a morte perceba, e não as palavras que os outros percebam.

Friday, 2 December 2011

Saturday, 26 November 2011

Reflexões de sol em inverno menor

Nós somos todos merda. A ética é evitar sujar os outros.

Wednesday, 2 November 2011

Got a devil' s haircut in my mind

A ler: este post do Nuno Teles sobre um corte de cabelo que afinal é só gel.

Sunday, 30 October 2011

Com atraso



And every time he kisses you it leaves behind the bitter taste of saccharine. Uma das acusações mais geniais da pop platónica.

Saturday, 29 October 2011

Thursday, 27 October 2011

Gaiety

All perform their tragic play,
There struts Hamlet, there is Lear,
That's Ophelia, that Cordelia;
Yet they, should the last scene be there,
The great stage curtain about to drop,
If worthy their prominent part in the play,
Do not break up their lines to weep.
They know that Hamlet and Lear are gay;

Gaiety transfiguring all that dread.
All men have aimed at, found and lost;

Black out; Heaven blazing into the head:
Tragedy wrought to its uttermost.
Though Hamlet rambles and Lear rages,
And all the drop-scenes drop at once
Upon a hundred thousand stages,
It cannot grow by an inch or an ounce.

Do Lapis Lazuli



ps este poema do yeats, onde em guerra cada homem e cada mulher acompanha heroicamente à sua própria tragédia, lembra e rejeita a ideia de que o mundo é um palco, de shakespeare; numa cidade bombardeada - numa cidade sem livre arbítrio - o mundo não é um palco, o palco é o mundo. e os personagens, com mais livre arbítrio do que os agentes, estão cheios de gaiety. e a gaiety é de uma beleza extraordinária.

Sunday, 23 October 2011

A verdade será o teu dote


Ford M. Brown, Cordelia's portion, coisa pré-rafaelita

O amor é coisa de velhos. Quero dizer que o amor impossível é coisa de velhos.

De quando chove mais do que devia


Monday, 26 September 2011

A falácia do conservadorismo



O Miguel Sousa Tavares está, na SIC, a defender as touradas, digo, está a atirar-se àqueles que são contra as touradas - gente que diz ser, basicamente, ignorante. Como primeiro argumento, esgrime Miguel que os pintores espanhóis sempre pintaram touradas, e que os anti-touradas deviam questionar-se porquê. Não sei o que responderia Picasso, talvez o Woody Allen saiba, ou aquela senhora que fala com os se foram. A seguir remata com a velha questão pragmática de justificar, não os meios pelos fins, mas os fins pelos começos: como as touradas são a única motivação para criar touros, se terminam as primeiras, acabam-se os últimos. O mesmo, diz ele, aconteceria com a proibição da caça. Esta falácia, de justificar o fim pelo começo, é também a que está nas cabeças que dizem que tornar despedimentos mais baratos e fáceis é política que levará a melhor e mais emprego. 

Ou que a razão pela qual eu não deveria mudar de canal, e deixar de ouvir MST, é porque, ao fazê-lo, estou a contribuir para o tirarem do ar, e se o tiram do ar eu terei menos motivos para mudar de canal. Que era o que queria fazer para começar.

Saturday, 24 September 2011

O que hoje penso de Woody Allen

A pergunta se um novo filme de Woody Allen é bom ou mau é um erro. Woody Allen, onde, na condição de alguém que ultrapassou os 30 anos, me alinho, não é o homem mais denso que anda para aí, mas é o mais compacto - quer dizer, imagine-se um ideia leve e pouco densa que é imperceptível quando liberta numa sala de boas dimensões, mas que se mantém intacta quando as dimensões da sala se tornam mais e mais reduzidas. A pouco e pouco vamos tendo menos acessório para reparar, e a ideia torna-se mais óbvia. O Woody Allen de hoje é a sala mais pequena onde ele próprio já guardou a sua ideia, e não tenho dúvidas que nos continuará no futuro a brindar com exercícios de contorcionismo mais extremos, cinicamente expondo que a sua ideia é tão pequena que vai caber numa sala do tamanho de um átomo, sem que sofra qualquer mutação - vai tornar-se pura, sem ar que nela se deposite, sem precisar de actores ou actrizes e muito menos de uma Nova Iorque do tamanho de uma Europa. Perguntar se um filme do Woody Allen é profundo ou não é como perguntar aos miúdos se um copo de 20 cl. alto consegue conter mais ou menos água do que um copo de 20 cl. muito baixo. Todos os filmes têm a mesma capacidade, só que se estão a tornar cada vez mais fininhos, cada vez mais translúcidos, onde cada vez mais só cabem as sombras dos actores, uma coisa que lhes tira a face, as expressões, onde a excentricidade sexual da Scarlett pode ser trocada por um tipo que fez um filme chamado wedding crashers, onde Roma pode trocar Paris e pode trocar Nova Iorque, e nada disso realmente interessa porque o verdadeiro actor, e local, é imutável e é Woody Allen. A ideia, essa, parece-me, e é ridículo expô-la, porque sinto que só vou saber exactamente qual é no seu último filme, é esta: o amor acontece por acaso, quando já não há mais nada que possa acontecer. É uma ideia paradoxal, e espero percebê-la melhor nos próximos filmes.

Sunday, 18 September 2011

Economia necessariamente política


Quando os bancos dão o nome às salas de aulas de algumas faculdades de economia em Portugal - se tivermos em conta que já davam o que era ensinado, assumir a paternidade era algo que se impunha -, vale a pena ver este vídeo. A economia é política, e o resto é para os engenheiros e agiotas.

(visto hoje no eixo do mal)

Saturday, 27 August 2011

A Special One


Friday, 26 August 2011

Têm a certeza que não querem mais dinheiro?



Desde pelo menos a primeira guerra mundial, onde os proletários dos vários países tomaram armas para se combaterem entre si e não as classes com que se confrontavam no processo produtivo, que a esquerda enfrenta e procura explicar o porquê de nem sempre aqueles por quem se diz bater estarem do seu lado.

Parece-me, no entanto, uma deliciosa novidade esta de os ricos dos outros países ultrapassarem a retórica neoliberal portuguesa pela esquerda, e forçarem, a muito contragosto, o nosso governo a aceitar discutir a imposição de um imposto à riqueza. É preciso lembrar que esta coligação ganhou as eleições sob um entendimento muito particular de que, se aos empresários fosse entregue mais dinheiro, estes iriam poder gerar mais emprego e fazer a economia crescer. Este entendimento é aquele que está na base da proposta de descida significativa na TSU, mas também na redistribuição agressiva de rendimento dos mais pobres para os mais ricos que este governo tem levado a cabo desde que tomou posse - mesmo que, ressalva seja feita, esta última não tenha sido acompanhada por um discurso que explicite a crença de que dar dinheiro aos mais ricos é bom para a economia, ficando assim a ideia de que talvez até já se aceite tratar-se apenas de uma preferência ideológica. Ora agora são os próprios ricos a dizer que a solução para a crise não passa por terem mais, mas sim menos dinheiro. É delicioso, a sério. Imagino muito economista académico com dificuldades em desenhar os exames para a época especial de Setembro, mas a parte mais deliciosa é mesmo a de imaginar os assessores do Álvaro à nora.

Claro que se pode alegar que o governo estava a pensar nos empresários das PMEs, e não nos accionistas das grandes empresas - talvez os primeiros não sejam sequer ricos, e não venham sequer a pagar o possível imposto. Mas então seria de esperar que se tivesse falado em excluir as grandes empresas do jacktop da redução na TSU, coisa que nunca ouvi.

Tuesday, 9 August 2011

Londres


Há várias explicações concorrentes para o que está a acontecer em Londres. Seria no entanto honesto esperar, destas explicações, que incluam alguma referência a subúrbios em Londres, atendendo a que, digamos, é lá que estão a acontecer os eventos de que se fala. Proponho aliás um exercício interessante: contar o número de vezes que, nas crónicas e nos posts de blogues de direita em Portugal, aparece referência ao nome de um subúrbio concreto em Londres, e o número de vezes em que surgem as palavras vandalismo e roubo. É goleada, na certa.

No entanto, esses opinadores não podem propriamente defender que a geografia não tem importância para a avaliação moral do problema, simplesmente por estarmos perante uma apropriação indevida de bens privados e/ou de violência "irracional": certamente, levarei esses opinadores a concordar que a avaliação moral da apropriação de bens privados e violência "irracional" deverá ser devidamente contextualizada numa narrativa que se situe numa dada geografia e num dado período histórico. O que dizer, por exemplo, da apropriação e violência do expansionismo ultramarino português no sec. XV, ou da apropriação de terras nas enclosures do sec. XVIII, e subsequente desenraizamento dos camponeses que as trabalhavam e que passaram a engrossar as fileiras de mão-de-obra barata nas fábricas, ou da ocupação particularmente violenta por parte de um povo sem terra – Israel - de uma terra que já tinha já um povo? Certamente, será necessário contextualizar e incluir uma referência específica a um local e a um período. Pois bem. O local são alguns subúrbios londrinos.

Seria assim importante que alguns comentadores soubessem não só a localização dos eventos sobre os quais opinam, como que pelo menos se familiarizassem com as dinâmicas que se foram gerando na sociedade britânica e que determinaram quem exactamente vive nos subúrbios em causa. Sim, as pessoas a quem eles se sentem já à vontade para qualificar de "escumalha", "ladrões", "vândalos", mas que nem se preocupam muito em saber quem são.

Ora eu, que não sei explicar o que está a acontecer, pelo menos sei o que está a acontecer: são fenómenos de violência que acontecem nos subúrbios londrinos (e noutras cidades, mas eu nunca lá vivi, em muitas delas nem sequer estive, e por isso não me apraz falar sobre elas) e que envolvem alguns dos seus habitantes. Não tenho explicação para o que está a acontecer, mas rejeito qualquer explicação que, em alguma parte, não aceite esta realidade e que não permita enquadrar as dinâmicas geográficas e sociais que geraram a população que habita nesses subúrbios londrinos. Nomeadamente, rejeito qualquer teoria que não inclua estes factos:

Nos últimos vinte anos, o Reino Unido tem assistido a uma desindustrialização dramática, conforme pode ser visto no gráfico abaixo, que contrasta a evolução do peso da indústria no PIB britânico e a de outros países comparáveis.


Esta desindustrialização foi acompanhada por um conjunto de políticas que a favoreceram sistematicamente - os serviços não emergiram espontaneamente na economia britânica, como uma vantagem comparativa à Ricardo. Em particular, destacaria dessas políticas a política monetária. O gráfico abaixo mostra a evolução das taxas de juro de refinanciamento do Banco de Inglaterra, comparando com as do Banco Central Europeu, e mostra como sistematicamente se praticavam juros significativamente mais elevados - até à crise financeira.



Em paralelo com juros mais elevados, e tal como seria de esperar, a libra durante os anos prévios à crise esteve significativamente sobre-avaliada. O gráfico abaixo contrasta, para um horizonte temporal mais curto (o google finance não mostra para trás de 2004), o valor da libra nos tais anos de juros elevados com aquilo que a libra vale desde 2008, ano em que se descobriu que afinal o sector financeiro era mais gato que lebre.



Uma libra demasiado forte retirou sistematicamente competitividade às exportações britânicas, enquanto pressionava em baixa a inflação de bens importados, o que permitiu que, por exemplo, alguma população mais privilegiada comprasse televisões baratas - sim, aqueles objectos que agora estão a ser roubadas e destruídos nos subúrbios - e fizesse férias no estrangeiro. Quem foram estes privilegiados? Não foram os 10% mais pobres, certamente, conforme pode ser visto no gráfico abaixo, que mostra a evolução da riqueza por classe de rendimento (quartil), entre 1998 e 2008 - os da esquerda são os mais pobres, os da direita os mais ricos. Nesta década, a economia britânica gerou um aumento global de riqueza de cerca de 33% - mas os 10% mais pobres tiveram uma redução de cerca de 12% no nível de vida. Na verdade, nenhum classe de rendimento teve um aumento de riqueza ao nível do aumento de riqueza gerado na economia, excepto os 10% mais ricos, que viram o seu rendimento crescer cerca de 38%.


A desindustrialização britânica e o aumento da desigualdade de rendimento tiveram como paralelo um crescimento avassalador do sector financeiro na economia britânica (em termos reais e metafóricos, dado que dificilmente a forte cultura sindicalista britânica, já muito amansada com Thatcher, teria facilitado esta assimetria).

A economia, cada vez mais centrada na City (o bairro financeiro de Londres), corria bem até 2007, e os bónus no sector financeiro multiplicavam-se - em 2005, por exemplo, cerca de 3000 bancários da City receberam bónus de pelo menos 1 milhão de libras. Nada disto é errado, dizem, porque, afinal, a economia deve permitir premiar os melhores. E os melhores, que recebiam muito dinheiro, compraram casas - as casas melhores. As casas WC, salvo seja, de Chelsea, Knigthsbridge, Kensington, multiplicaram alguns dígitos em valor em poucos anos. O gráfico abaixo mostra a evolução do preço médio das casas em Londres nos últimos anos. O valor médio passou de cerca de 150 mil libras em 2000 para 300 mil em 2008 - dá para ter uma ideia sobre o que aconteceu às casas dos bairros mais caros. Relembro, entretanto, o gráfico que mostrava a evolução do rendimento por classe: temos portanto uma duplicação no valor das casas, e uma redução em 12% no rendimento dos 10% mais pobres. É fácil perceber para onde foram arrastados estes infelizes que, por não serem suficientemente bons.




Como bons eram, de facto, os rapazes que trabalhavam na City. Em 2008, com a crise financeira, alguns destes bons (e os melhores) perderam o emprego, porque os bancos para os quais trabalhavam os melhores não aguentaram um ou dois meses de crise financeira. Outros deixaram de receber bónus de 1 milhão de libras, e passaram a receber um pouco menos. A maioria, segundo consta, continua a safar-se bem.

Poder-se-ia também falar da política de imigração perseguida pelo governo Labour e, agora, continuada pelo governo conservador, e o modo como esta política condiciona os ordenados mais baixos. Também se podia falar da desregulação que permitiu que o sector financeiro crescesse deste modo e pagasse os bónus que pagava - mas já se falou o suficiente disso.

E repito, finalmente, mas apenas para que surja neste post uma referência específica a um subúrbio londrino: a geografia importa, e um roubo na City faz muito menos barulho do que um roubo no Morissons de Peckham.

Wednesday, 3 August 2011

Usura



Lhereux era mercador astuto de roupas e perfumes em Yonville, uma pequena terra da província. E era versado em letras e outros instrumentos de crédito. Lhereux foi vestindo e perfumando Emma como a uma burguesa, e Emma, tão próxima de o ser, ficava cada vez mais em dívida para com Lhereux. Quando o dinheiro começou a falhar, Emma tentou fazer do marido cirurgião, mas o marido só sabia fazer sangrias, e acabou por gangrenar a perna do seu primeiro e último paciente. Exasperada e cada vez mais incapaz de amar o seu esforçado marido, Emma obtém deste procuração dando-lhe todos os poderes sobre os seus bens, seguindo conselho dado por Lhereux. Investida do novo poder, Emma vendeu uma pequena propriedade, e com o dinheiro comprou mais vestidos, às escondidas do marido, que continuava a fazer com as sangrias o dinheiro dos dois. Era com esses vestidos que Emma traia o pobre homem. Quando o dinheiro tornou a faltar, Lhereux, garantindo que não a podia financiar directamente, afirmou conhecer um banqueiro na capital que seria capaz de lhe descontar a sua letra, mediante um preço. Quando chegou nova letra, o banqueiro foi pessoalmente a Yonville para lhe penhorar os bens.

Lhereux e o banqueiro ficaram-lhe com tudo a preço de saldo, e parece que os amigos destes passarão férias na casa que um dia foi de Emma e de Carlos.

Tuesday, 2 August 2011

Imposto

Vou abordar um assunto cujos contornos em larga escala desconheço, e esta é uma prerrogativa que me assiste enquanto blogger. Julgo que havia duas formas de o estado alienar o BPN: por concurso público ou por leilão. Na primeira hipótese os potenciais compradores enviam propostas concretas, nas quais se comprometem com objectivos específicos, preferencialmente quantificados e balizados temporalmente, e oferecem um preço final, ficando do lado do estado a tarefa de hierarquização das propostas sob um conjunto de critérios pré-definidos. A segunda hipótese consiste num caso particular do concurso público, onde o único critério de avaliação é o preço final. O estado português optou pela primeira hipótese, não me parecendo que tenha sido discutida a segunda. Naturalmente, a primeira hipótese gera sempre menos dinheiro do que a segunda, e gerará tanto menos dinheiro quanto mais onerosas forem as obrigações a que se comprometeu o candidato vencedor. Esta diferença - entre o valor de um concurso público e o valor que teria sido gerado por um leilão bem desenhado - é na prática um imposto sobre os contribuintes. O benefício deste imposto para a sociedade é dado pelo valor que as obrigações e os compromissos assumidos têm para a mesma. No entanto, estas obrigações e compromissos só terão valor para a sociedade se as obrigações e compromissos subjacentes às regras do Banco de Portugal, que se aplicam aos bancos, não forem já suficientes para acautelar o bem-estar geral. Ou, no caso de as obrigações e compromissos dizerem respeito a objectivos de política bancária, só terão valor se não puderem ser assumidos eficientemente pela CGD. Logo, somos confrontados com duas hipóteses: ou o benefício para a sociedade é nulo, e portanto este procedimento entregou dinheiro dos contribuintes a troco de benefícios privados, ou este custo para a sociedade é um preço a pagar pela existência de uma regulação (e política bancária) deficiente e insuficiente.

Saturday, 30 July 2011

Limão

Segundo o DE, o BCP vai oferecer um desconto aos seus clientes que queiram pagar antecipadamente a totalidade do seu crédito à habitação. Esta, à partida, é uma medida sensata: obtém liquidez e aumenta o rácio de solvabilidade do banco. Mas não é. É apenas desespero. Como os clientes capazes de antecipar as suas dívidas são os mais solventes, o BCP ficará assim com uma pool de clientes com menor probabilidade de pagar, ou seja, o capital que o BCP pode esperar obter dos seus actuais devedores irá diminuir - enquanto o juro médio, que inclui os spreads contratualizados, irá subir. O BCP obtém assim liquidez a curto prazo, mas com uma "taxa de juro" altíssima a longo prazo - o longo prazo onde talvez esta administração já lá não esteja, e onde decerto o oxigénio do BCE não estará. Esta é a cofidização do BCP.

Sunday, 24 July 2011

A economia anorética



O governo de coligação britânico lembra-me uma anorética que, olhando-se no espelho, lamenta-se: "estou mesmo gorda, não estou?"

Depois de uma dieta de fúria, levando a cortes na despesa e no emprego público absolutamente draconianos, em face a níveis de despesa e dívida públicas perfeitamente limitados em comparação com a realidade europeia e ocidental, a economia britânica encontra os primeiros sinais de uma anemia galopante. A surpresa com que os sintomas têm sido recebidos pelo ministro das finanças assemelha-se às linhas do Guardian de ontem, que diziam que ainda estava por esclarecer a causa da morte de Amy Winehouse.

Ideologia

Porque é que não se exige às altas personalidades cristâs que repudiem o acto de terrorismo na Noruega?

Tuesday, 19 July 2011

Política

Tive hoje o prazer de assistir na Almedina ao lançamento do "Portugal e a Europa em crise", um livro organizado pelo João Rodrigues e pelo José Reis que colige vários artigos escritos por boa gente no Monde Diplomatique nos últimos três anos.

O João Cravinho foi convidado e falou da crise em termos que me pareceram geralmente acertados, com uma excepção. Disse que não considerava que o euro fosse um problema válido para Portugal, porque, no seu entender, a desvalorização monetária é apenas uma droga que cria dependência crescente e não resolve problema nenhum. Rematou qualquer coisa como nenhum país ter conseguido usar eficazmente o câmbio para obter ganhos a longo prazo. Em vez do euro, apontou a globalização e a emergência da China industrial, com os famosos custos unitários de trabalho muito baixos, como o fenómeno que justifica boa parte da crise actual em Portugal. Ora estas duas ideias parecem-me uma contradição em termos. A emergência de uma China industrial é objectivo activamente perseguido através de uma política cambial extremamente agressiva, que consiste em manter o yuan subvalorizado. Não só existem países que claramente conseguiram utilizar a política cambial em proveito próprio, como não se pode qualificar objectivamente os salários de baixos sem se perceber que são baixos também por serem medidos em euros ou em dólares, mantidos artificialmente caros.

É preciso perceber que a política cambial é apenas outro nome para política monetária, e que monetária é apenas um adjectivo para Política.

Monday, 18 July 2011

Saturday, 16 July 2011

Queda de um Anjo


E eis que um economista que se diz ser keynesiano lembrou-se da política monetária. O Sr. Presidente da República defende que o euro deve enfraquecer (perante o dólar americano, presume-se), para, tornando as exportações dos países europeus mais baratas, fomentar o crescimento económico destes países. É bom de ver que esta posição pública por parte de um chefe de estado europeu, que saúdo, entra em directo conflito com o disposto no Tratado de Maastricht, que o actual Presidente da República assinou em 1992, enquanto Primeiro Ministro de Portugal. Este Tratado, que é um trabalho seminal em matéria de ortodoxia monetária, coloca no pedestal (enshrines) o estatuto de independência do Banco Central Europeu, como garantia de que a futura área do euro beneficiaria de uma estabilidade de preços, conforme pode ser lido num discurso transcrito no próprio site do banco. Independência, para quem teve a sorte de não ter passado quatro anos em bancos de escolas de economia, quer dizer independência do poder político, ou seja, o Conselho de Administração do banco tem de ser imune às vontades dos decisores políticos europeus, respondendo apenas perante critérios técnicos pré-definidos. No caso do BCE, o critério pré-definido é apenas um, ou seja, a estabilidade dos preços, acreditando-se que a política monetária não deve tentar fomentar o crescimento económico, porque tal degeneraria apenas em inflação.

Estou certo que esta revisão doutrinária representa a queda de um anjo do pedestal da ortodoxia económica, o que levará a um questionamento por parte da profissão sobre as vantagens desta mesma "independência" - quase sempre, a independência de uma instituição perante o estado geralmente aumenta a sua dependência perante interesses privados, e esta parte geralmente esquecem de ensinar.

Finalmente, e reiterando que saúdo o que o Sr. Presidente disse publicamente, considero que a questão da força do euro é apenas parte do problema, escondendo, na verdade, outra questão que julgo pelo menos tão relevante. Cerca de 75% do valor das exportações portuguesas tem como origem países da União Europeia. Não sei exactamente qual a proporção que tem como origem os países que aderiram ao euro, mas presumo que seja muito próxima desses 75%. Uma desvalorização do euro beneficiaria, portanto, 25% das exportações portuguesas. Se imaginarmos que uma desvalorização de 20% do euro aumentaria as exportações portuguesas para fora da Europa em 20%, então estas exportações passariam de 25% para 30% do total. Isto não teria um impacto significativo. O problema da periferia europeia é em boa parte um problema de dumping salarial por parte da Alemanha, como defendi aqui. Este dumping implica que o "escudo" está sobrevalorizado perante o "marco", e aí sim, parece-me, reside boa parte da chave do problema. Que se resolve com a outra "perna" da política Keynesiana, ou seja, uma política orçamental (e industrial) forte por parte dos estados europeus que, no contexto de uma moeda única, é a política monetária mais séria que temos.

Banho

Friday, 8 July 2011

Continuo sem entender

O Luís Fazenda está na SIC Notícias a insurgir-se contra o downgrade do rating da dívida portuguesa por parte da Moody's. Continuo sem perceber. Um partido que considera o default inevitável pode criticar uma agência por o dizer?

Thursday, 7 July 2011

Dificuldade conceptual

Encontro alguma dificuldade em conciliar uma crítica às agências de rating e uma crítica à política económica conservadora que é adoptada pelo governo português, e aplaudida pela europa. Se a redução na despesa e a imposição de medidas de austeridade diminuem a probabilidade dos países periféricos pagarem a sua dívida, como acredito ser auto-evidente, então as agências de rating terão alguma razão em considerar que a possibilidade de Portugal entrar em default aumentou consideravelmente - mesmo que não sejam essas as razões que apresentam.

Desemprego e Dumping




O gráfico acima, publicado anteontem pelo economist, mostra como a Alemanha foi o único país europeu onde o desemprego na população jovem entre os 15 e os 24 anos diminuiu nos últimos três anos. É uma ilustração das consequências práticas de uma política de dumping industrial que a Alemanha tem seguido desde a entrada em funcionamento do euro, e que tem contribuído para a desvalorização monetária real na Alemanha e que está, junto com outros factores, na base da crise do euro. A redução no desemprego jovem na Alemanha é espelho do aumento do desemprego jovem nos países periféricos, tal como a redução nos salários reais dos trabalhadores alemães é espelho dos défices destes países.

Saturday, 2 July 2011

Impostos e outras touradas

O imposto de 50% sobre a componente acima do ordenado mínimo do 14º mês dos portugueses parece que gerará aos cofres do estado 800 milhões de euros. Ora a redução em quatro pontos percentuais da Taxa Social Única (TSU) parece que poderá gerar uma redução na receita do estado de 1600 milhões de euros - ou seja, o dobro. Quando se diz que esta solução fiscal é de último recurso, diz-se pouco. Esta solução é de último recurso porque há outra solução que não tem recurso: a de reduzir a contribuição dos patrões para a segurança social dos seus empregados. Ninguém a questiona, e aparentemente ninguém se lembra dela quando se fala no aumento de impostos sobre o trabalho.

Na verdade, e apenas para que os empregadores recebam 1600 milhões de euros, os portugueses pagam 800 milhões este ano, e pagarão os outros 800 milhões mais à frente - por enquanto, este valor vai acumulando na dívida pública, que já anda bem cheiinha. Esta é uma opção política que significa objectivamente uma transferência de rendimento entre o trabalho e o capital. Não se trata de uma opção por aumentar a receita e reduzir a despesa, controlando o défice público, porque o aumento de impostos é totalmente anulado (ficando ainda aquém) pela diminuição na receita que é originada com a redução na TSU.

Esta medida política é a demissão de qualquer análise económica séria sobre a natureza do problema que enfrentamos: num momento em que o desemprego se ultrapassa a si mesmo, e a economia entra em recessão, retira-se dinheiro de quem o gasta mais e pode revitalizar a economia, e dá-se a quem ou não vai gastar o dinheiro, poupando-o, ou, se o fizer, será em bens de luxo importados. É a velha questão das propensões marginais ao consumo e do multiplicador de Keynes, particularmente bem explanado por Michal Kalecki, e para que não percebeu nada do que eu disse desde o último ponto final, não está sozinho, neste governo também ninguém percebe.

Um governo que leva a cabo uma transferência desta magnitude apenas com a ténue esperança de que as empresas serão mais produtivas e venderão produtos a preços mais baixos, quando aliás toda a experiência foi que ganhos em produtividade (eufemismo em Portugal para pagar menos aos empregados) não têm tido qualquer efeito ao nível dos preços que se praticam, significa ideologia à solta. Cuidado.

Da ideologia

O blogger DBH, que escreve no blog 31 da Armada, confessa-se surpreendido por João Miranda e LR, bloggers do Blasfémias, serem tão claros na sua opção pela privatização total, absoluta e imediata da RTP. Como diz, nada deveria sobrar, e conclui que esta posição demonstra que a questão é ideológica e não é de mera preocupação orçamental.

O que é importante perceber é que, para que a questão da privatização da RTP fosse orçamental, já teria de ser ideológica. Ao dinheiro não se pede que pense.

Thursday, 23 June 2011

Cocaína



Esta tabela com preços da cocaína em vários países ocidentais, publicada pelo economist, parece mostrar como é a oferta que determina o preço da droga e não a procura. O nível dos preços parece não ter qualquer relação com o nível do poder de compra de cada país: o Reino Unido é o país com preços mais baixos, a seguir vem a Holanda, depois Portugal, depois Bélgica, depois Suiça, etc. Além disso, está também des-correlacionado com a proporção de população que consome cocaína, à direita.

Wednesday, 22 June 2011

O real problema

O Governo Alemão propõe uma descida de cerca de 10 mil milhões de euros em impostos para as classes de rendimentos média e baixa. Esta medida pode assemelhar-se, à vista desatenta, como um estímulo à procura - e não me custa acreditar que será assim apresentada. Temos uma situação de crise económica em alguns dos países para os quais a Alemanha exporta, e é necessário estimular a procura doméstica para continuar a garantir níveis elevados de procura agregada.

Mas se a medida é genuinamente do lado da procura, porque é que ela não é feita através da política monetária, ou seja, porque é que o Banco Central Europeu não imprime mais dinheiro, em vez de andar a anunciar que pretende subir a taxa de juro de refinanciamento, em face à sua preocupação com os níveis dos preços registados na zona euro (leia-se, Alemanha)? Afinal, iria beneficiar todos os países, incluindo, e especialmente, os países periféricos.

Esta medida não é do lado da procura, é antes um complemento lógico a uma estratégia centrada na oferta e que tem gerado tão bons frutos. A Alemanha, desde a criação no euro, e com o apoio explícito dos sindicatos, tem sistematicamente restringido as subidas nos salários dos seus trabalhadores, mesmo em face a ganhos importantes de produtividade. O gráfico abaixo mostra a evolução, por um lado, dos custos unitários do trabalho, e, por outro, da produtividade (medida em PIB per capita). Ambas as variáveis assumem valores nominais, com base (100) em 2001.


Fonte: Eurostat

Como é visível, os salários (linha azul) não têm acompanhado os ganhos de produtividade (linha vermelha). Esta é a principal explicação para os excedentes na balança comercial registados pela Alemanha, que têm, como identidade contabilística, espelho em parte dos défices crónicos e na subsequente dívida dos países periféricos da zona do euro. O sucesso comercial da Alemanha foi conseguido em boa parte com base no sacrifício dos trabalhadores alemães, cuja contribuição para o aumento da produção nacional não foi devidamente compensada. Este sacrifício, que foi aceite, está a ser finalmente compensado através de uma redução nos impostos pagos pela classe baixa e média. A estratégia é assim simples: Primeiro cria-se uma união monetária, impedindo os países que comercializam com a Alemanha de desvalorizar as suas moedas, o que tornaria os produtos alemães relativamente mais caro e, portanto, menos apetecíveis. Depois reduzem-se os custos de produção na Alemanha, numa estratégia alinhada com os sindicatos, severamente restringindo a capacidade competitiva dos países com os quais concorre. Depois devolve-se o dinheiro aos trabalhadores, que apoiaram esta opção. A estratégia pode ser inteligente, mas foi longe demais, e a Alemanha poderá ser vítima do seu próprio sucesso, caso o euro colapse e a dívida (que, repita-se, é o outro lado do espelho dos défices comerciais, pelo que as duas realidades são absolutamente indissociáveis) não seja paga na sua totalidade.

Para efeito comparativo, veja-se no gráfico abaixo como os salários em Portugal têm crescido ao nível da produtividade.


Fonte: Eurostat

Família

Para salvar o Natal, aliena-se o resto do ano.

Tuesday, 21 June 2011

As férias do Montesquieu

Parece que o recém-indigitado primeiro-ministro alertou os parlamentares do PSD para que não planeassem férias prolongadas para Agosto. Afinal, é o governo que supervisiona os parlamentares, ou os parlamentares que supervisionam o governo?

Ninguém parece ter-se incomodado com isto. Está bem. Afinal, estão os liberais no poder.

Monday, 20 June 2011

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O frete

Num artigo publicado hoje no Expresso online, Daniel Oliveira identifica três razões para a conquista do poder por parte daquele que considera ser um conjunto de revolucionários de direita: A crise económica, o falhanço das anteriores lideranças do PSD e o desprezo nacional por José Sócrates. Todas são válidas, mas esquece-se da mais imediata: o chumbo do PEC por parte do Bloco de Esquerda e do PCP.

Mas que las hay

Sobre o fim-de-semana, o fim das ideologias, o fim da história e o fim do serviço público.

Friday, 17 June 2011

A banda sonora deste novo governo



Aqui.

Tentei o "H", o "I", e o "J"
E até agora não arranjei uma gata
"L", "M", "N", "O"... A cada letra que passa eu me sinto mais só
"P", "Q", "R", S.O.S!
Socorro! Eu já tô na letra "X"!

Meu caderninho de telefones já tá perto do fim e eu tô longe de um final feliz

Monday, 13 June 2011

Sistema nacional de saúde

Vou citar em dois posts seguidos Krugman, mas é por um bom motivo. Neste artigo de opinião, ele cita números que vale a pena colar nos vidros traseiros nestas discussões sobre saúde, evitando talvez sermos albarroados por camiões dos seguros de saúde privados. Esses números nem são o centro do argumento para o sistema de saúde norte-americano, mas são-no para o nosso. Os custos do sistema nacional de saúde norte-americano (Medicare) subiram 400% de 1969 a 2009, sendo que os valores dos prémios dos seguros privados subiram 700% no mesmo período. Krugman acompanha estes números apontando que, embora o Medicare tenha feito um mau trabalho em controlar os seus custos, os privados fizeram um trabalho muito pior. Eu daria um passo à frente, avançado com uma convicção que tenho mantido sempre que discuto este tema: os privados não são apenas piores que o público a controlar os custos de saúde; eles são uns dos principais responsáveis pelo aumento dos custos dos sistemas públicos de saúde. A concorrência que o privado tem oferecido ao público tem sistematicamente drenado este último de recursos, elevando a capacidade negocial dos médicos, cujos salários representam uma parte muito substancial dos custos, e mudando os próprios procedimentos de diagnóstico, que agora, para serem considerados realmente seguros para o paciente, têm de incluir um número cada vez maior de testes caros. À medida que o espaço de concorrência entre o público e o privado é alargado, o primeiro tem de escolher entre ver os seus custos subir, ver a sua qualidade baixar, ou ambos. Seria útil um estudo empírico aprofundado sobre este tema, estabelecendo a relação de causalidade entre o alargamento do privado e o aumento dos custos de saúde. Sem esquecer que uma análise de custos tende a sub-avaliar o efeito nefasto da concorrência do privado, dado que, ao retirar cada vez mais pacientes com maiores rendimentos (e, portanto, com maior voz) do sistema público, a opção pela redução na qualidade ganha maior peso.

Friday, 10 June 2011

A política dos credores como a negação do liberalismo

Krugman aponta o dedo para o rei que vagueia nú nas academias e nos governos dos países europeus e dos EUA, colocando a questão nos termos que me parecem mais correctos: não existe nenhuma teoria sólida que sustente os planos de austeridade, a redução nos gastos e a política monetária restritiva que o BCE e o FED têm levado a cabo, em face à crise económica que se vive. Por outro lado, os únicos beneficários desta estratégia política são os credores. Nem é preciso estabelecer uma relação causal. Não é preciso acusar os governos de serem reféns dos credores, basta perceber que estes são os únicos beneficários para se poder partir para uma Política séria de oposição a estas políticas.

É preciso perceber que as pessoas que nos emprestaram dinheiro, mais do que conscientes dos riscos que estavam a enfrentar, foram devidamente compensadas com taxas de juros que reflectiam precisamente esses riscos. Ignorar esta realidade é desvirtuar as regras do jogo, e é, na sua essência, curiosamente, a negação do liberalismo: primeiro os credores aceitaram uma aposta e colocaram o dinheiro onde ele era mais rentável, sendo mais rentável apenas por haver risco de não pagamento. Depois, quando o risco de não pagamento se ameaça materializar, correm para que o estado mude as regras do jogo, e faça tudo para impossibilitar o não pagamento.

Ask for a coherent theory behind the abandonment of the unemployed and you won’t get an answer. Instead, members of the Pain Caucus seem to be making it up as they go along, inventing ever-changing rationales for their never-changing policy prescriptions.While the ostensible reasons for inflicting pain keep changing, however, the policy prescriptions of the Pain Caucus all have one thing in common: They protect the interests of creditors, no matter the cost. Deficit spending could put the unemployed to work — but it might hurt the interests of existing bondholders. More aggressive action by the Fed could help boost us out of this slump — in fact, even Republican economists have argued that a bit of inflation might be exactly what the doctor ordered — but deflation, not inflation, serves the interests of creditors. And, of course, there’s fierce opposition to anything smacking of debt relief.

Thursday, 9 June 2011

Tal como o comunismo...

... o liberalismo também está quase sempre para acontecer. Mas há sempre alguém que acaba por se meter no caminho.


Nos tempos do Estaline, o Trotsky era burguês. Mas que Portas é socialista parece-me um franco exagero.

Tuesday, 7 June 2011

Islândia

A aventura da Islândia é para mim o evento mais excitante de um país no século XXI - muito mais do que as poeirentas revoluções no norte de África e incomparavelmente mais do que a captura e morte de bin Laden. Faz-me lembrar a épica revolta dos velhos banqueiros ingleses empregados pelo Crimson Permanent Assurance, que dominam os banqueiros americanos para os quais trabalham, os mandam borda fora do 20º andar como os piratas faziam nas pranchas dos barcos, içam a âncora e zarpam em direcção ao novo mundo.


Monday, 6 June 2011

An intervention from Greece, part I

Pedi ao George Papafragkou que fizesse uma análise crítica sobre a situação que se vive actualmente na Grécia. O George é meu amigo, e está a tirar um Doutoramento em Filosofia na Universidade de Atenas. A situação na Grécia desenha paralelos com a realidade portuguesa que importa conhecer e assumir.

Having been invited to comment on the crisis in Greece I must admit that I am troubled of where to begin from. Perhaps I should start in the middle; how things are now over here. It has been now almost one and a half year since the debt crisis begun and over a year since Greece had to apply for the combined financial aid of the IMF, the ECB and the Eurozone countries.

The first pact signed in May 2010 was called a Memorandum (of Cooperation) and its details were not widely available, not even to the Socialist members of Parliament who voted for it, together with the extreme-right populist LAOS party. But as the EU-IMF loan comes in quarterly installments a combined committee of the three has to approve of the policy measures taken in order for the actual loan installment to be given.

The measures reek of neoliberalism: Increase in VAT and taxes for employees but tax cuts for big business, cuts of 15% in the salaries of the state sector employees and cuts in their pensions, deregulation of the labour market so that people can be fired with less compensation and can work for more hours with much more flexible schedule. More than 100.000 seasonal workers in the public sector did not have their contracts renewed, over a thousand schools were merged with others in rural Greece so that money could be saved, the same will happen for hospitals and universities –which actually have no funds to employ new staff to substitute those going in pension. The interesting thing with deregulation is that it is actually regulation in favour of the capital. I know that I am sounding like an old-fashioned marxist but the deregulation proposed actually imposes through legal measures lower pay for young employees (25% lower), the nullification of contracts between unions and employers and the implementation of “solitary contracts” for each firm and employee, the opening of numerus clausus markets such as the taxi and lorry drivers and pharmacists which will enable big firms to operate instead of the individual entrepreneurs, the loss of university autonomy and be subjection to changes by a committee of “the wise” which will be presided by an IMF counselor.

These measures have not proved adequate, as it was feared when they were first proposed: The growth rate plummeted which led to an increase in the dept ratio to GDP and now Greece is in the midst of recession, 2.35% drop in the GDP in 2009 to be followed by an additional 4.35% in 2010 the year where the IMF/EU-imposed austerity programme begun. At the same time the debt as percentage of the GDP is predicted according to the IMF to rise to 145.2% in 2011 and to 148.8% in 2012 , but according to the European Commission the prediction is for 157.7% and 166.1% respectively. This, combined by the actual loss in government revenue due to the recession and the fall in demand and despite the tax measures continues to give rise to market speculations that Greece will default on its debt, despite the harsh policies followed. Actually the CDS ratings have risen even further making Greece unable of even fathoming a return to the credit markets and undermining the rationale behind the acceptance by the Socialists of the EU-IMF measures, which were supposed to help Greece out of a debt default situation.

Temos quadratura do círculo


Pacheco Pereira nas palavras de James Joyce

Sunday, 5 June 2011

A notar

Com todos os defeitos que tem, José Sócrates foi o único homem que deu uma maioria absoluta à esquerda. Será útil lembrar isso na próxima campanha para as eleições internas no PS.


Parabéns ao PSD.

Os dias das eleições

Votei na escola n.º 2 dos Olivais, a escola onde completei o ensino secundário. Uma escola que teve obras significativas nos últimos anos, e que agora tem excelentes condições, incomparáveis com as que tive quando lá estudei. É bom, não é?


Na quarta-feira estacionei o meu carro no largo do carmo, numa rua de estacionamento devidamente demarcado e provido de parquímetros - os quais não tenho de pagar visto que sou residente. Como ando pouco de carro deixo-o ficar estacionado no mesmo sítio durante dias seguidos e, geralmente, salvo uma ou outra borracha do pára-briras que algum bêbedo leva emprestada, não tenho motivos para me preocupar com a segurança do carro. Só que na sexta-feira havia comício do PSD. E quando chego ao largo do carmo vejo uma mesa bem animada com betos à paisana, fardados com t-shirt laranja e óculos ray-ban, bebericando mines justamente no local onde, pensava eu, estaria o meu carro. Perguntei ao polícia, que mostrou-se surpreendido e disse que não sabia de nada. Só lá estava para garantir a ordem. Lá acabei por saber que tinham rebocado o meu carro para outro largo, ainda dentro da zona onde tenho direito a estacionamento - foram cuidadosos e pouparam-me a uma multa. O PSD precisava do espaço para fazer o comício final de campanha e os restaurantes exigiam um espaço para as esplanadas. O PSD resolve a coisa oferecendo o que não é deles: a rua onde estava estacionado o meu carro. É curioso como um partido que, depois de uma evolução falhada, faz agora questão de mostrar que ocupa bem o seu espaço no 25 de Abril - pena é que, para ocupar este espaço, tenha de mandar fora tudo tudo o que lá estava antes. Incluindo o meu carro. Que eu saiba, isto nem sequer é legal. É mau, não é?

Friday, 3 June 2011

Duas previsões para o próximo governo

Vai durar menos de dois anos. Não irá sobreviver à re-negociação e aos termos dessa re-negociação, nem à evidência de que o cumprimento do acordo da troika até esse momento serviu apenas para reduzir salários da função pública, mudar a lei laboral e privatizar algumas empresas.

O líder da oposição, durante todo esse período, será José Sócrates. Que será o grande vencedor da eleição de Domingo, perdendo-a.

PS - Nem uma nem a outra me deixam contente.

Thursday, 2 June 2011

No Conselho de Ministros, no Parlamento e na Quadratura do Círculo

Na segunda-feira Passos Coelho terá três grandes adversários: Paulo Portas, José Sócrates e Pacheco Pereira.

Wednesday, 1 June 2011

Política

O debate político tem-se reduzido a um discurso técnico. Estes são competentes? São bons a fazer o que nós achamos que eles devem fazer? Esta é uma vitória clara do PSD - a redução da política através de uma política de redução, e passe o trocadilho fácil, que todos nós temos um Paulo Portas a assomar garganta acima, é isto que penso: para eles, o problema é simples. Devemos dinheiro porque gastámos mais do que ganhámos, e agora - até é só aritmética -, é fácil, é preciso gastar menos e produzir mais. Tudo é neutro, tudo é vazio, tudo são contas de subtrair. Há países muito bons onde já nem há discussão política, mas técnica (de qualidade desmensuradamente superior à do nosso país), e onde o estado gasta pouco dinheiro - e até se cumprem programas de instituições internacionais, uma do outro lado da rua do FMI. É na África Subsariana.

Argumento da diligência

Nogueira Leite vem agora dizer o óbvio. Mais do que questionar a honestidade intelectual de economistas que se esqueceram de dizer o óbvio nos últimos meses, acusando quem o fazia de ser radical e não ter em conta os graves prejuízos que o inevitável iria trazer ao país, (o que ajudou entretanto a produzir um estranho documento com duas versões e que prevê um conjunto de medidas com forte impacte social), é importante virar o argumento da diligência. O argumento da diligência, aventado por vários insuspeitos social democratas, incluindo Pacheco Pereira e Passos Coelho, é o de que o PSD, por ser ideologicamente mais próximo do documento da troika, é o partido mais preparado para implementar o programa. "Se" houver renegociação, e se esta implicar, por exemplo, a saída do euro e a rasura do programa da troika, e se o argumento da diligência for correcto, então o PSD deixará de ser o partido melhor para o governo nessas circunstâncias.

Monday, 30 May 2011

Ideologia

É particularmente educativa a forma como o economist hoje aborda as recentes convulsões sociais em Espanha - e a ausência destas em Itália. Quando a noção de sociedade ou de um grupo desaparece, diluída na mera soma dos indivíduos que fazem parte destes, surge uma divertida dificuldade em explicar de modo convincente qualquer revolta social. Não havendo tal coisa como sociedade, ou classes, e havendo apenas indivíduos com interesses particulares, é certo que a única razão que resta para a revolta dos jovens em Espanha é estarem contra o egoísmo dos indivíduos empregados - esse grupo que, em interesse próprio, quer garantir direitos que só desincentivam que os empregadores vão contratar novos trabalhadores. E tudo para nem sequer considerar a hipótese de que todos - empregados e desempregados - querem emprego e direitos, contra quem os quer privar de um, de outro, ou de ambos.

Thursday, 26 May 2011

Monday, 23 May 2011

Clarividência

Terminei o meu último post com a tentativa de explicar o porquê de haver tanta gente que envida tamanhos esforços a professar a inevitabilidade da renegociação, acreditando, ainda por cima, que as medidas de austeridade irão fomentar a economia.




Esta ilusão de um jogo de soma nula - a ideia de que se recuarmos o estado, mais e melhores recursos fluirão livremente para os privados criarem empregos e produzirem mais - está particularmente clarividente no artigo de hoje no nytimes do Krugman. Nasce de um preconceito ideológico, que é alicerçado em má economia - ainda que seja a economia que se ensina na maioria das faculdades.

Thursday, 19 May 2011

Os elefantes rosa

O problema lógico de que falo no post abaixo é uma pequena racha numa narrativa, construída com base numa linguagem e numa simbologia pouco sortida e muito superficial, e que serve para envolver a manada de elefantes rosa que habita a pequena sala de estar da nossa economia. Claro que essa linguagem não fecha bem, e deixa ver pelas rachas que os elefantes estão lá. Um dos símbolos mais utilizados nesta narrativa é a de que o problema do default é um problema ideológico: de um lado temos partidos que não querem honrar uma dívida gerada numa economia centrada no mercado, do outro temos partidos que querem entregar o dinheiro aos malvados dos banqueiros, sacrificando os mais pobres.

Mas o elefante do default não é uma criação ideológica - a ideologia só o está a tapar. Sem me preocupar com a questão ideológica dos partidos - que, na verdade, nem será tanto ideológica como estratégica -, interessa-me mais a falha na lógica económica que está na raíz de se acreditar que o default será resolvido com as medidas de austeridade: acredita-se que se se reduzir a despesa do estado, vai sobrar mais dinheiro para pagar a dívida. Esta ideia até parece algébrica: gasta-se menos, tem-se mais dinheiro para se pagar o que se deve. Mas não é algébrica, é apenas ideológica: menos despesa por parte do Estado gera uma menor receita por parte do outro vaso comunicante - os privados. Como Keynes demonstrou, se todos quiserem poupar ao mesmo tempo - privados e público - na verdade ninguém consegue poupar mais, a riqueza cai e a possibilidade de pagar o que se deve diminui. A posição merante ideológica tem raíz na ideia que o estado opera numa lógica de jogo de soma nula, onde absorve os recursos que poderiam estar nos privados - não gerando nenhum valor em si mesmo.

Álgebra

Parece-me que há aqui uma deficiência lógica. Paulo Portas no debate com Francisco Louçã repete algo que, em boa verdade, nem é argumento só dele: ao Portugal declarar que não paga a totalidade da dívida precipitar-se-ia a saída do euro; a saída do euro reduziria a metade o valor dos rendimentos dos portugueses e, em simultâneo, elevaria ao dobro a dívida portuguesa. Se não pagamos a totalidade da dívida, naturalmente não podemos ficar a dever o dobro (assumindo uma desvalorização de 50%). Se não pagarmos metade, por exemplo, ficaremos a dever o mesmo. A menos que estejamos a pensar apenas na dívida pública - mas por que razão não havia de haver renegociação da dívida privada?

Wednesday, 18 May 2011

A economia libidinosa

Mais importante que a tara de que nos empresta dinheiro, é o sado-masoquismo: começa por se magoar quem se excedeu, para que não tire gozo disso - e deixe de voltar a ter vontade de o fazer; isso põe-no de rastos, submisso; incapaz de continuar a aguentar o sofrimento infligido; deixa de poder comprar produtos de fora; deixa de poder pagar o que deve; sofre mais; não paga; não compra; faz sofrer a Alemanha. O princípio da realidade irá magoar o euro e a economia alemã.

What's in a name?

Saturday, 14 May 2011

Homens práticos

Ouvi Medina Carreira dizer ao Goucha na tvi 24 que preferia ter uma dona de casa a governar as Finanças do país. Era nisto que Keynes pensava quando dizia que os homens práticos, que pensam que estão isentos de qualquer influência intelectual, são geralmente os escravos de algum economista defunto (se ajudar a perceber, Keynes não acreditava na existência de economistas na acepção moderna do termo, apenas de economistas políticos). A ideia que governar uma casa é o mesmo que governar um país encerra em si mesma uma opção ideológica vincada, e em si mesma uma concepção sobre a natureza do desenvolvimento económico como um processo que acontece naturalmente quando o estado é pequeno, controlado, pouco capaz: uma economia de uma casa asseada e gerida por uma dona de casa através de uma mesada do chefe de família.

Parece-me claro que ele é muito bom homem, e cheio de boa vontade. Simplesmente não é a minha vontade - que pessoalmente também acho boa. Não estou a acusá-lo de escolher a política, estou a acusar a política de escolher toda a gente e de tornar isto tudo muito mais complicado do que o manual do aspirador.

Tuesday, 10 May 2011

O ser estalinista

Afinal, uma fotografia pode ainda ser manipulada para ser criado um falso momento essere.

Como esta:


Sunday, 8 May 2011

A direita pública

O PSD quer cinco saídas para uma entrada na função pública. Esta história da relação entre o emprego público e a direita mostra dois paradoxos curiosos. Em primeiro lugar, a direita, patriótica, ignora uma das principais razões que explicam o facto de o trabalho na função pública ter vindo progressivamente a tornar-se menos interessante, menos útil e menos eficaz em moldar as políticas públicas: Bruxelas. Ignora ou prefere ignorar. Em segundo lugar, a direita não quer menos funcionários públicos ou menos gastos públicos, quer apenas trocar a sua composição: quer mais polícias, mais juízes, mais militares, mais submarinos, mais vouchers para pagar escolas privadas e hospitais privados que custam, como se sabe, bastante mais do que os equivalentes públicos.

Thursday, 5 May 2011

Do ser e do ter

É curioso o papel que as fotografias tiveram no evento da morte de bin Laden, um símbolo que eu acho pouco competente para a guerra ao terror. A morte está em particular marcada por três fotografias:

A primeira, cuidada, estudada, seleccionada entre várias, foi tirada na cave da casa branca, e mostra o Presidente, a Secretária de Estado e os principais conselheiros militares e políticos com semblante pesado, observando o movimento da morte que era filmada por câmeras instaladas nos capacetes dos militares e que era reproduzida num ecrã que não aparece na foto. As pessoas mais poderosas do mundo acompanham, num momento estático, a evolução da acção de militares altamente qualificados e anónimos, dos quais exclusivamente dependia o sucesso da acçao. É para este movimento que eles se voltam, como que magneticamente.


A segunda foto foi colocada a circular poucos minutos depois da morte de bin Laden, e era falsa, forjada por amadores alguns anos antes, a partir de uma ferramenta popular, o photoshop. Durante algum tempo, e enquanto se acreditava que a foto fora disponibilizada pelo próprio governo americano, ela serviu para alimentar teorias da conspiração - para os espectadores, nós todos, foi a primeira e talvez única vez en que tivemos acção, neste caso reacção, errada, que fez a alguns questionar se bin Laden teria sido realmente morto. Foi.



A terceira foto, a verdadeira fotografia de bin Laden morto, e após dois dias de discussão interna sobre se deveria ser disponibilizada, decidiu-se não o fazer. E não se fez porque a sua disponibilização poderia gerar uma acção violenta por parte da al Qaeda.









Esta história das fotos faz-me lembrar a minha última aula de italiano, onde o nosso professor nos explicou que o passado próximo forma-se utilizando um de dois verbos auxiliares: o verbo essere (ser) ou avere (ter). O verbo essere é apropriado para as situações dinâmicas, em que houve um processo, com princípio, meio e fim, e onde se mudou de estado: o passado do verbo uscire (sair), porque implica uma mudança de estado - entre estar e deixar de estar num sítio qualquer -, é conjugado com o verbo essere (sono uscito). O verbo avere, ao invés, usa-se com momentos isolados no tempo: o verbo dormire (dormir) conjuga-se com o verbo avere (ho dormito).

A morte de bin Laden é um verbo de ter, e não de ser.

causalidade no capital social


Ben Fine.

Monday, 2 May 2011

bin Laden e a guerra ao terror


Será importante enquadrar a morte de bin Laden, anunciada hoje, no contexto simultaneamente mais e menos abrangente da "guerra ao terror". Esta "guerra" (doravante guerra) começou com um ataque terrorista suicida, organizado por uma célula totalmente autónoma e descentralizada, que vaporizou qualquer vestígio de um inimigo. Havendo necessidade política de retaliação, tornou-se fundamental nomear um. A escolha no entanto não foi óbvia, nem se enquadrou numa lógica suficientemente sólida mesmo para o próprio povo americano: 15 dos 19 terroristas que atacaram as torres gémeas eram originários da Arábia Saudita, um estado forte que formou e forma ideólogos extremistas, mas não foi a Arábia Saudita que foi atacada pelos Estados Unidos, tendo-se optado antes pelo Afeganistão, primeiro, e depois pelo Iraque. Estes países no entanto partilham dois problemas sérios: nenhum deles, e especialmente o segundo, tem uma relação evidente e completa com os homens que atacaram as torres gémeas. Adicionalmente, em nenhum deles sucedeu uma uma vitória militar rápida e inequívoca, que ajudasse a esquecer essa ausência de ligação completa. O símbolo de bin Laden foi assim tornando-se um fetiche com poder agregador e legitimante para a guerra ao terror.

É por isto que penso que a morte de bin Laden é simultaneamente maior e menor que a guerra ao terror, sem nunca se confundir exactamente: é maior porque bin Laden tornou-se um símbolo fundamental, possivelmente o único que sobrou simultaneamente à guerra ao terror e ao ataque terrorista às torres gémeas, e, mais importante, o único que podia efectivamente ser vencido. A definição e sucesso da guerra ao terror tornou-se dependente de bin Laden; mas bin Laden também é menor, muito menor do que a guerra ao terror, que incluiu a invasão de estados soberanos onde morreram milhões de pessoas, produzindo efeitos que são ainda imprevisíveis numa geografia vasta e importante para a segurança do globo, alterando relações e equilíbrios de poder, privilegiando interesses, forçando novas definições étnicas e de inimigos regionais, num contexto onde entretanto a China, a Rússia, o Brasil, emergiram como super-potências.

Mas bin Laden não é exactamente a guerra ao terror, por menos que isso se vá tornar claro nos próximos meses. E não será claro por isto: como alguns vultos pouco recomendáveis da história do século XX professaram, a vitória - qualquer que seja, e sob que pressupostos for - tende a legitimar os vencedores. E a história dos vencedores americanos é simples: um dia nós dissemos que iamos matar bin Laden, e conseguimo-lo. Num mundo minado pela incerteza, alguma dela criada e reforçada com a guerra ao terror, alguém que consegue realizar o que promete potencia uma falsa sensação de segurança que conferirá lógica e um poder quase fetichista a uma boa parte daquilo que os americanos já fizeram e vão fazer a nível de política externa, confundido subitamente bin Laden, e a sua morte, com um momento de uma longa marcha por uma vitória legítima. Sobre o quê? Ainda vamos ver.