Tuesday, 29 October 2013

Por quem os preços dobram

Uma empresa monopolista não pratica o preço que quer - pratica qualquer coisa como o preço mais alto que as pessoas estão dispostas a pagar. Quando essas pessoas estão mais pobres, a empresa monopolista, se quiser continuar a ganhar dinheiro, baixa o preço. E pode ter de baixar bastante. Uma empresa num mercado muito concorrencial também não pratica o preço que quer - pratica o preço que os outros praticam, e todos praticam um preço baixo. Como este preço já está próximo do custo, não tem muita margem para baixar para responder ao facto de as pessoas terem menos poder de compra.
 
Um indício que fala montanhas sobre o grau concorrencial de muitos setores em Portugal é o que está a acontecer aos preços de uma data de produtos. Eu sei que pessoas mais pobres também significam custos do trabalho mais baixos, o que poderia dar maior margem a setores concorrenciais para baixar preços. Mas há claramente setores onde os preços estão a cair muito mais que outros, e diria que os setores onde os preços estão a cair mais até utilizam relativamente pouco trabalho.
 
A seguir.

Wednesday, 23 October 2013

Depende do ponto de vista, ou o fim da Utopia

Fui à Almedina à procura da Utopia - não há, não há em lado nenhum, parece que só na Gulbenkian - e perguntei como estava a correr a venda do livro do Sócrates. O livreiro respondeu que dependia do ponto de vista. Depois é que me lembrei o quão antagónica é a imagem que as pessoas têm de Sócrates. Não podia ter respondido outra coisa: depende do ponto de vista! Voltámos, em boa medida, ao tempo da anedota do barbeiro que, de lâmina afiada, pergunta ao freguês o partido político, e ele responde: o mesmo que o seu. O mesmo que o seu, ou o fim da Utopia nas falidas livrarias portuguesas.

Sunday, 20 October 2013

As coisas que importam

Uma entrevista brejeira, variando entre o mau gosto, a falsa intimidade e um realismo político assustador; a primeira entrevista política em muitos anos que li de um trago, com recortes absolutamente certeiros e maior política em cada "merda" dito do que em cada palavra deste orçamento de estado. E isto é muito, muito importante, para a história das leituras que eram feitas em 2011 sobre a natureza da atual crise: "... decidiu-se que Portugal não ia pedir ajuda. Houve uma intervenção manhosa do primeiro-ministro da Holanda e eu, muito irritado, até lhe pedi que dissesse quanto é que Portugal lhe devia, porque não estava para ficar-lhe a dever um tostão nem aturar-lhe o calvinismo reles."
 
A ser lido pela direita patrioteira de cócaras perante a Europa. A mesma direita que, em 2011, deslumbrava-se com a vinda do FMI e que, para hoje esconder o seu fracasso, prefere declarar guerra ao seu próprio povo. A direita que prefere manter a farsa da alegada culpa desse mesmo povo a admitir a sua imensa ignorância sobre a natureza desta crise.

Friday, 18 October 2013

Lady Mary

"Yet who would have thought the old man to have had so much blood in him". E, ainda assim, quem é que diria que o velhote tinha tanto sangue dentro dele? Ninguém me avisou que um homem era todo este sangue! Vocês sabiam? Ninguém mo disse. Achei que a morte era apenas um verbo, nunca um adjetivo. Mato-o e ele deixa de ser. Agora matei um rei mas não me tornei rainha. O sangue dele não pára de jorrar: o homem já morreu há tanto tempo e o sangue nunca mais acaba. 

Disse hoje Maria Luís Albuquerque, após os cortes gizados, que, "neste momento, tal como os portugueses, tem pouca margem para poupar". Tal como os portugueses, com 4500 euros mensais de ordenado, ela não tem dinheiro suficiente para pôr de lado. Curioso que ainda não se interrogue: mas quem pensaria que estes portugueses tinham tanto sangue dentro? Diz antes: o sangue destes portugueses não chega; nem me permite poupar. 

Wednesday, 16 October 2013

Caras de pau

Um membro do parlamento (sim, vai à inglesa que a coisa é grave) acaba de dizer na tv que este foi o corte na função pública mais reduzido desde 2010. Pois. Olha, por comparação com 2010, um funcionário público competente, a meio da carreira, perdeu pelo menos 26% do seu rendimento, em termos nominais - qualquer coisa como um terço, contando com a inflação. Assim de repente: um subsídio em duodécimos comido pelo imposto extraordinário (7%); o prémio de produtividade (7%, tipicamente um salário mensal, dependendo naturalmente dos serviços) e 12% agora com este novo corte. Estou a dar de barato o congelamento de carreiras.

Um terço - a que se soma o aumento dos impostos sobre o consumo, da utilities e dos transportes públicos. Quanto é mesmo que, em 2011, a malta me dizia que o rendimento disponíveis dos funcionários públicos ia desvalorizar numa eventual saída do euro, em consequência de uma negociação musculada com os credores internacionais? 

Sunday, 6 October 2013

As ruínas do romantismo podem ser românticas?

Estive em Ronda, a possibilidade urbana e turística do romantismo - labirintos do homem construídos no topo de um rochedo, com 40 quilómetros de raio de isolamento -, e sentei-me no McDonnald's a beber um café. À minha frente, pude apreciar o avançado efeito das térmitas da moda nos calções de ganga das rapariguitas da cidade, e pensava que, até há pouco tempo, eu teria de fazer um enorme esforço para aceder àquelas partes do corpo feminino. E nem assim me sinto menos cansado. É possível que tudo isto seja de um conservadorismo insuportável, mas também pode não ser.  
 
Há uns tempos, no National Geographic, vi um documentário onde se explicava que o humano gosta tanto de açúcar porque não há nenhum veneno na natureza que seja doce. A indústria moderna pegou neste acidente evolutivo e inundou-nos de possibilidades de nos sentirmos seguros. Paralelamente, fomos perdendo saúde com tanto açúcar. Esta crítica à Indústria é o que permite não me acusar frontalmente de conservadorismo.
 
Ainda em Ronda, a tal capital-ruína de Espanha que sobrou ao romantismo do século XIX para pode vender-se como souvenir aos turistas (e vendeu-se bem a mim, que é bonita até mais não), caminhava uma das tais raparigas na direção da minha esplanada. Estranhei que ela tivesse uma t-shirt, larga, caídas sobre os tais calções, com um enorme bouquet de flores estampado. À medida que se aproximava, pude perceber que tinha umas letras vermelhas no meio do bouquet. Diziam: LOL.

Sunday, 22 September 2013

Do tempo

- Escolhe uma semente, vá; - Esta!; - Mas olha que essa só nasce daqui a um ano, filha; - Um ano?; - Sim; - Um ano é muito, mãe? 

Ouvido, hoje, na secção jardim do AKI. As crianças podem ser impacientes, mas só um adulto pode ter pressa. 

 - Quando ficar sóbrio mato-me. E é por isso que eu não paro de beber. Não tenho coragem de ficar sóbrio. 

Ouvido, ontem, num anexo à sala principal do teatro de Almada, numa peça menos conhecida do Strindberg, o Pelicano. Só um bêbedo pode realmente ter medo da sobriedade, porque é o único que está distanciado o suficiente para a conhecer.

Friday, 13 September 2013

Amor sem esperança

O amor sem esperança não tem um fim, li hoje e quem o escreveu, há oitenta anos, foi Sandor Marai. O amor recém-nascido de Picasso pela Dora Maar, em 36, três anos depois do Marai ter escrito aquilo, agora que penso nisso, estava, pois, e na formulação de Marai, repleto de esperança, a explodir de esperança, conforme pode ser visto na coisinha mais fantástica que pude ver nestas férias, em Málaga - que Picasso deixou aos 19 anos para nunca mais voltar:

Tuesday, 20 August 2013

if she, my liege, can make me know this clearly, I'll love her dearly, ever ever dearly

Era uma vez uma Helena que foi criada por um autor tão grandioso como Homero, mas para figurar numa peça de tão pouca importância que o Harold Bloom, por omissão, considerou-a uma de entre duas ou três que não são obras primas mundiais. Ninguém sabe se a Helena de Shakespeare era bonita como a de Tróia. Sabemos que era médica, e que salvou o poderoso rei de França de uma morte certa. Também sabemos que era casada com um rapaz fogoso e sonhador, e que o casamento tinha praticamente tudo para não dar certo. A certa altura, o rapaz alista-se para combater numa guerra estrangeira, de que desconhecia as causas, só para se ver livre dela. Apaixonada, ela envia-lhe uma carta pedindo que volte, mas Bertrand responde que só será dela se Helena lhe der um filho e se lhe puder exibir um anel de família, que o rapaz guardava consigo. Dado que estava numa guerra, era difícil que a prerrogativa se concretizasse. Helena disfarça-se e entra no cenário de guerra, combina e troca com uma rapariguita por quem Bertrand entretanto se apaixonara e queria desflorar, e acaba por recebê-lo na cama, às escuras, onde o rapaz lhe faz uma jura de amor, selada com o anel, e engravida-a. 

Já estou farto de falar de como, para Chesterton, a verdadeira descoberta é a do explorador inglês que sai de Portsmouth e, apanhado no mau tempo, acha que chegou às Índias mas está apenas de volta a Inglaterra. É cada vez mais preciso fechar os olhos.

Sunday, 18 August 2013

Morte no armário

Violence, when it's in a house, (is) like seeing the clothes in a tree after an explosion. You may be prepared to see death but not the clothes in the tree.

Disse-me hoje o Philip Roth, no the plot against america. A morte que nos inquieta é a morte que se deduz dos vestígios de roupa espalhados desordenadamente nos troncos de árvores sólidas, centenárias, indiferentes. O que nos inquieta no fim de uma relação é a roupa suspensa nos armários, a roupa intacta, inteira, vestível, que não será vestida. O que perturba na morte em Roth é o que será feito do corpo que vestia aquela roupa destruída; o que perturba no fim de uma relação é o que será feito do corpo que vestia aquela roupa intacta. É essa outra forma de ver a contradição insanável de um fim de relação: a roupa foi deixada intacta, mas ninguém a vestirá. 

Tuesday, 16 July 2013

Much ado about very little



Quer-me parecer que, a partir do minuto 14.42, está a chave para perceber os próximos dias - e, ainda mais complicado, o de hoje. Para perceber porque é que o PS vai assinar o acordo. Para perceber que o BE e o PCP parecem estar distraídos quando acusam o PS de incoerência e de desbaratar o que conseguiu obter em dois anos. Para perceber que as eleições antecipadas, para o PS, implicariam ter de falhar com a promessa  do minuto 14.42. E para perceber que o único governo capaz de manter esta promessa até se imolar totalmente é o actual. Não explica nada mais, mas explica isso, e já explica bastante.