Sunday, 21 October 2012

The world is still deceived with ornament

Fui a Almada ver uma representação do Mercador de Veneza, a peça de um grande génio chamado Shakespeare mas também a de um pequeno mau génio chamado tempo. Os quatro séculos onde a peça foi comentada por gente como Goethe, Pope, Marx, Freud, representada no novo mundo, no velho e na barbárie do iii reich, dão a cada palavra pouca liberdade e muito peso. Percebe-se a vontade de inovar, e nós portugueses nunca nos fizemos rogados. 

Infelizmente, nem sempre é boa ideia. Para iniciar, a peça vive da polarização entre conceitos aparentemente contraditórios: entre a Veneza capitalista, formal, masculina, onde até para fugir é preciso vestir-se de homem, e uma Belmont intuitiva, feminina, idílica; entre um Shylock calculista, vingativo e rico e um Antonio sensível, generoso e empobrecido. Estes contrários são apresentados de modo extremamente elegante por Shakespeare, como um paralelismo permanente entre os dois locais, que se fecham numa síntese onde os homens intermediários - Antonio e Shylock - terminam igualmente sós e os que meteram os recursos a funcionar e aceitaram o risco herdam o paraíso. Mas o arranjo de hoje, inovador, resolve partir a peça em duas partes, a primeira das quais mostra de seguida tudo o que acontece em Veneza e a segunda tudo o que acontece em Belmont. A ideia talvez tenha sido a de a primeira parte focar-se no ponto de vista de Shylock, que não conhece o que se passa em Belmont e se limita a ser rapidamente engolido numa série de eventos que não só não lhe permitem vingar-se, como o levam a perder tudo o que tem (filha, dinheiro, religião, por esta ordem). Mas não funciona. Sem o paralelismo, não há necessidade de uma síntese, mas apenas da resolução de dois problemas distintos: o de Shylock, que fica sozinho, e o de Antonio, que fica sozinho, mas o ponto é que ficam ambos sozinhos em simultâneo e como resolução de um problema comum. Tal como os dois homens opostos são semelhantes, Belmont precisa da existência paralela de Veneza, da qual é impossível de se distinguir: o paralelismo entre a melancolia de Antonio e Portia, a dependência de Belmont da riqueza (herdada) de Veneza (que a gere), e de Veneza da redenção de Belmont, tornam as cidades como os dois lados do mesmo local. Este problema com a peça é ainda mais óbvio quando a frase mais importante, da Portia no tribunal - "which is the merchant here and which the Jew?", em vez de ser dita inteira, como um todo, é dita em duas partes: primeiro pergunta quem é o mercador, e apresenta-se Antonio, e depois quem é o judeu, e apresenta-se Shylock. Uma das frases mais importantes da peça, que pretende introduzir a incapacidade de distinguir os dois homens e que tem inerente uma enorme ironia (dado que é impossível não reparar que o Judeu tem a capa e o chapéu), passou a ser dita como se o fosse por uma professora primária a fazer a chamada. 

Para piorar, a representação é medíocre. O momento que mais gosto da peça é quando Lorenzo e Jessica procuram elevar o seu amor à eternidade, comparando-o, à vez, com os exemplos mais românticos da antiguidade clássica (Troilus e Cressida, Thisbe e Pyramus, etc) sem nunca referirem os fins trágicos que estes pares tiveram. Eu gosto de pensar que não o referem por terem tido uma educação incompleta, que só lhes permitiu reter nomes e não as histórias em si. Não é por acaso que Ben Jonson acusou Shakespeare, depois da morta deste, de ter pouco latim e ainda menos grego. A educação formal incluía o grego e o latim suficientes, tal como hoje se ensina muita álgebra mas pouco cálculo nas escolas secundárias, pelo menos em Portugal. Não tendo tido educação suficiente para conhecer o lado trágico dos exemplos que citam para engrandecer o amor que sentem, o elemento trágico de um amor apaixonado - algo que não parece ter um fim apesar de ele estar sempre presente - está ali visível (para a assistência) na força toda. Eu só consigo imaginar os dois deitados na relva, só com a luz das estrelas, interrompendo-se mutuamente para citarem novos exemplos de amores insuperáveis. Nesta peça, os dois estão em pé (em pé!), e não só não se interrompem, como declamam as suas frases pausadamente. Como se soubessem o que estão a dizer... 

Esta é, aliás, em toda a linha, uma peça onde não há sentimento: no tribunal, que representa a confluência de séculos de opressão dos judeus na Europa, que finalmente podem ser vingados, com o terror de um homem que acha que lhe vão arrancar literalmente o coração (por causa de uma dívida que serviu para que o amor da sua vida pudesse seduzir a mulher que o levou), e não há um ui, um ai, tudo é declamado, tudo é medo de Shakespeare. 

E acabei por falar de tanto e não falei do mais importante, que é o enorme paralelismo da peça (original) com o troikismo deste país. Ficam só dois detalhes: o modo como Bassanio explica que é preciso dinheiro para conseguir salvar o dinheiro que perdeu e que agora deve (dando o brilhante exemplo de que quando perde uma seta, precisa de lançar outra seta para saber onde aterrou a primeira), e o modo como Antonio se expressa no tribunal, referindo que o seu pathos, a sua crise, o destruira de tal forma que não sobraria o pedaço de carne necessário para pagar aos seus credores.

These griefs and losses have so bated me, 
That I shall hardly spare a pound of flesh 
Tomorrow to my bloody creditor. 

Tuesday, 16 October 2012

Os conservadores não gostam muito de História

Há um ano eu chamei ao memorando de entendimento da troika o novo tratado de Versalhes. Um tratado com medidas de austeridade extrema que tinham como objetivo garantir que a Alemanha não voltava ao seu estado bélico. As medidas do tratado enfraqueceram-nos tanto, que praticamente se tornou inevitável que a Alemanha se tornasse um estado bélico. O memorando quer garantir que Portugal paga a dívida, destruindo a economia de tal modo que se torna impossível pagar a dívida. Etc etc. 

É curioso que alguém tente defender que o problema da Alemanha nos anos 30 tenha sido a deflação. Não, é mesmo só parvo. 

Monday, 8 October 2012

Um governo preso no liberalismo

Tal como há um ano eu estava convencido que o mais importante era demonstrar que o memorando era uma contradição nos seus termos e reduzia objetivamente a probabilidade de Portugal vir a pagar a sua dívida, resultando assim que o único objetivo era o de punir o país e servir de exemplo para que outros países da periferia europeia não ponderassem usar políticas pró-ativas e contra-cíclicas parar responder ao avolumar da crise económica - enquanto caiam de maduros os ativos nacionais vendidos a preço de saldo -, hoje acho que a grande batalha para a esquerda passa por não deixar que nos digam que este governo não é um governo liberal. Isto é tão mais importante quando já se percebem as tentativas de substituir este governo por um outro - que tente  novamente o liberalismo, que falhe novamente, mas que falhe melhor. Se não formos capazes de demonstrar que a natureza da acção deste governo, e que a natureza da catástrofe económica que dela resulta, é totalmente liberal, a falsificabilidade que o liberal Popper nos ensinou, e que é supostamente fundamental para a eficácia e sobrevivência da democracia, é só uma palavra que tive bastante dificuldade de encontrar no dicionário. 

A lógica dos argumentos da direita é, curiosamente, muito próxima daquela que os marxistas-leninistas usam para defender que o socialismo científico nunca foi testado na prática - pelo que não se pode  rejeitá-lo. A lógica é sempre a de que as ideias que defendem são tão boas que toda a gente - incluindo os derrotados - correm para abraçá-las. O terror de uma violência sem critério aparente e a acumulação de capital forçada pelo estado sobre o campesinato e sobre o próprio proletariado era uma condição fundamental para poder derrotar o feudalismo russo, a burguesia embrionária - e a horda de gente com dúvidas que, estranhamente, subsiste sempre em todo o lado, só para chatear.  

O argumento da  direita é o de que um governo realmente liberal não sobe impostos, por um lado, e faz um esforço de redução da despesa e das "gordurinhas" do estado, por outro. O que não podia ser mais falso. O liberalismo exige um estado disciplinador, burocrático e de longo alcance, que financie e suporte uma máquina repressiva sobre todos aqueles que atentem sobre o direito à propriedade privada entretanto acumulada. Sem tribunais preparados e eficientes, sem polícias numerosas e capacitadas, sem cadeias, sem fiscalização forte das fronteiras, sem um exército e uma diplomacia bem financiados que possam defender minimamente os interesses externos do país, sem recursos que permitam injetar desesperadamente liquidez na banca durante os períodos cíclicos de falta de liquidez - não há liberalismo. Os défices de Reagen, Thatcher e Bush são sintomáticos da natureza de estado gordo que está subjacente ao liberalismo. Um estado gordo exige impostos, e não se podendo financiar o estado apenas com impostos sobre os pobres, nem sobre os ricos -  em cuja acumulação de capital depende o liberalismo -, taxa-se a classe média - que é o verdadeiro elemento de suporte do liberalismo e que invariavelmente se vira contra o mesmo, provando a sua impossibilidade prática de implementação. O liberalismo não se desenvolve em abstrato - não se convence uma multidão de pessoas da bondade e naturalidade de uns poucos levarem quase tudo e a maioria ficar com pouco. O liberalismo. tal como o comunismo, desenvolve-se necessariamente com um elemento repressivo e que procure sempre o equilíbrio de algo que é cronicamente desequilibrado. Tudo isto custa dinheiro. 

Não há nenhum elemento de novidade em um governo liberal aumentar impostos e não reduzir a despesa - o que haveria de novo seria um governo liberal que não alterasse a composição da despesa, e isso, como se sabe pelos cortes na saúde e na educação, e no aumento da despesa para salvar a banca, está a ser feito.  

Vale a pena voltar a este tema repetidamente nos próximos tempos. Até para ajudar a rejeitar anedotas geniais como a do Ricardo de Araújo Pereira no Governo Sombra, que tenta demonstrar a pior natureza não só liberal, mas também socialista, de Vítor Gaspar, e que deixo abaixo:

"Havia uma anedota muito engraçada nos países socialistas que era: quais são as três vitórias dos países socialistas?  A educação, a saúde e o desporto. E quais as três derrotas? O pequeno almoço, o almoço e o jantar. Ora vítor gaspar tem seis derrotas, que são a educação, a saúde, o desporto, o pequeno almoço, o almoço e o jantar" 

Wednesday, 3 October 2012

Roma e o amor

Tenho uma relação própria com o woody allen, que consiste em consumi-lo compulsivamente sem precisar de parar para coisas menores como o enredo. Os filmes são maratonas de metáforas a correr atrás dos corpos dos atores. Neste filme em particular adorei o modo como aquele ator famoso italiano representa (se faz passar por) um mero mortal que, sem motivos aparentes, se torna famoso de um dia para o outro - o ator que é famoso por representar (por se fazer passar por alguém) representa alguém que se torna famoso por ser ele próprio, na sua imensa banalidade. É a delícia que Shakespeare devia sentir quando metia um homem a representar uma mulher que se fazia passar por um homem, ou a delícia de uma cidade onde hoje as ruínas são mais populares do que eram os edifícios imperiais e eficientes de uma cidade que era e é eterna - e cíclica. A fama, e o amor, acontecem ambos nas suas próprias ruínas - na visibilidade aparente das estruturas que ficam depois de não terem aguentado o peso de tudo o resto (que desaparece para sempre do tempo). É preciso recordar que a única miúda gira no filme é a prostituta, a mulher que representa quem quer que seja e que dá amor às famílias ricas. A mulher que não aparecerá nas fotografias dos casais que se aguentaram porque ela lá esteve, incógnita, no meio, a satisfazer o patriarca. Tudo o resto é Roma e os seus turistas, ou woody allen e a sua audiência, em busca de um sentido para as suas ruínas. 

Monday, 17 September 2012

Vénus e Marte

Reuters

(O Kundera é que dizia que as manifestações eram o exponente do Kitsch. A de ontem, ao contrário, foi Boticelli).

Tuesday, 11 September 2012

Os amigos do Gaspar

O ministro da técnica disse hoje que o sacrifício seria distribuído de modo igual por toda a sociedade e eu lembrei-me da anedota da galinha que sugere ao porco prepararem um pequeno almoço para o amo.

- É fácil. Eu dou os ovos e tu dás o bacon.

Monday, 10 September 2012

Fábulas


Esta afirmação tem subjacente uma crença fundamental sobre o funcionamento dos mercados: as transferências de rendimento entre o trabalho e o capital são boas para a economia. É exatamente isso que é dito: as medidas são neutras do ponto de vista da receita fiscal como um todo. No entanto, as medidas terão um impacte positivo na economia, porque, precisamente, o dinheiro nas mãos dos empresários é mais útil do que nas mãos dos trabalhadores.

Com dinheiro nas mãos, os empresários investem e a economia progride. É este o pecado original dos liberais, e que revela o modo como entendem a origem da economia capitalista. Esta leitura da história ignora por completo considerações sobre o papel das instituições, do estado, da violência e do poder. Neste mundo idílico, a economia é geração espontânea dos empresários, e os trabalhadores têm a sorte de beneficiar dela. Reconhecer o papel do consumo privado na economia é contrário a esta ideia, precisamente porque inverte a lógica liberal, que coloca o primado no investimento, do qual o consumo é apenas um by-product.

A transferência entre o capital e o trabalho, proposta pelo Governo Português, não é neutra nem tem um impacte positivo. O problema económico do país não é, intriscamente, o de uma insuficiente poupança. Existem recursos disponíveis, como se tem sabido. Os bancos têm financiamento barato e o consumo de carros de luxo não tem diminuído, o que indicia que existem rendimento na classe mais alta. O problema, como dizia, não é o de falta de poupança, mas falta de investimento. Esta diferença entre a poupança e o investimento é que determina que o produto continue a cair, até que as duas variáveis se igualem. A questão central, portanto, é a da falta de vontade de investir e assumir riscos, e a falta de vontade dos bancos emprestarem dinheiro. E esta falta de vontade prende-se, essencialmente, com a expectável contração do consumo que sucederá, essencialmente também, por causa das medidas do Governo.

Como M. Kalecki demonstrou, retirar rendimento da classe mais baixa (que consome mais) e entregá-la à classe mais alta (que poupa mais) tem efeitos negativos em momentos de recessão (ou seja, em momentos onde não se quer investir).

Ideologicamente, no entanto, é essencial manter a fábula de que o dinheiro nas mãos dos ricos multiplica-se generosamente e transborda para as mãos saciosas dos pobres.

Saturday, 8 September 2012

Medidas de austeridade de hoje

Na prática, na substância - essa massa pegajosa - o que as medidas de hoje querem dizer é isto: continuam a tirar dois subsídios ao serviço público, e, no privado, aplica-se um imposto aos trabalhadores e entrega-se, oferece-se incondicionalmente, a respetiva receita fiscal - dinheiro dos contribuintes, a única forma assumida pelos humanos que agrada aos liberais - às empresas. Pequenas, grandes, lucrativas, não lucrativas, que mandam os rendimentos para fora, que deixam os rendimentos cá dentro. É uma transferência do capital para o trabalho à mão armada. 

Se a luta de classes morreu é porque já só resta um dos lados. 

Tuesday, 19 June 2012

A política do vale

Passei na rua Braancamp por esta loja, que desconhecia. Parece que compram e vendem todo o tipo de objetos em segunda mão. Dizem, no anúncio colocado na montra, que o casamento é com o santo António, mas o divórcio é com eles. Não têm nada que ver com os momentos de alegria; mas estão lá para a desgraça. Não constroem nada, mas apanham os cacos - e lucram com eles. O Robert Frost dizia que os bancos te emprestam um chapéu de chuva quando está sol e to pedem de volta quando começa a chover. Estes tipos não te chegam sequer a emprestar um chapéu de chuva quando está sol: isso é lá com o santo António. Mas estarão à tua espera para te ficar com o chapéu de chuva quando estiver a chover. Não entendes, homem, que isto é um negócio como qualquer outro e que - segundo argumento, o argumento do vale (já explico) - se eles não existissem, isto era coisa para acabar bem pior? Pensemos bem nisto: se não existirem estes cashconverters, os tipos que percam o emprego e precisem de dinheiro desesperadamente não terão como fazê-lo. É objetivamente pior, não é? 

Na discussão sobre a dinâmica das guerras civis, um académico que muito admiro - o David Keen - demonstrou como, em alguns casos específicos, os mercados funcionaram particularmente bem durante os períodos de conflito e fome na África Subsariana. A segurança em torno dos mercados era, num aparente paradoxo, muito mais garantida em períodos de conflito e miséria do que em períodos de paz - e a quantidade de transações (a que os economistas chamam a "profundidade do mercado") era, também, muito superior. As pessoas vendiam todos os ativos que tinham - gado, terra, trabalho - a troco de pouco, para que pudessem comprar comida. Isto é bom, não é? Se não houvesse mercados, o que é que eles comiam? 

E é isto que chamo o argumento do vale: estamos rodeados por montanhas, e se ficares aqui sossegado no vale, objetivamente vais ficar melhor. E é verdade. Não te cansas. A política do vale é excelente a dizer-nos o que seria que acontecia se não existisse coisa x: se não houvessem cashconverters, os pobres não teriam possibilidade de ganhar dinheiro vendendo as suas coisas. A política do vale é excelente a dizer-nos o que seria, mas é péssima a dizer o que devia ser. A discussão sobre o que devia ser, no entanto, chama-se ética, e os humanos durante séculos costumavam querer entrar nela. O que é correto? O que é justo? O que é que está para além destas montanhas? Porque é que os mercados em período de conflito são tão seguros e tão "profundos"?  Porque é que há conflitos, em primeiro lugar, e porque é que permitem a um punhado de gente enriquecer? Porque é que a Alemanha conhece períodos tão profundos de prosperidade, no meio do caos financeiro da periferia? É correto que haja gente que beneficia da desgraça alheia? A política do vale é, em boa parte, a legitimação necessária para o fim das discussões éticas. A melhor forma de manipulação: aquela que, depois de te colocar num vale, te pergunta se não ficarás pior se andares para aí a tentar subir montanhas.

Thursday, 12 April 2012

A linguagem e o amor



Os monumentos da civilização são também os monumentos da barbárie. Lembrei-me de Benjamin quando encontrei esta porta pequena e despojada que dá acesso à cave do palácio de sintra. Os monumentos da civilização são também os monumentos da barbárie, e a porta pequena da criadagem, simultaneamente necessária e excedente, foi construída por outros trabalhadores de base - os construtores do palácio construiram também os meios de inferiorização da sua própria classe. Não foi D. João I que fez o palácio e aquela porta expõe obscenamente a relação de poder que vive na linguagem típica de turistas.

Todos os monumentos da civilização são os monumentos da barbárie, e isso é verdade para toda a civilização, e para toda a barbárie. A grandiosidade tem, por assim dizer, uma porta pequena e despojada por onde quem os constrói pode entrar e esconder-se lá dentro. A obscenidade está em exibir a porta, não em passá-la. Passá-la é uma necessidade.

Friday, 9 March 2012

It's the economy, stupid?

Há muito que não escrevo aqui, mas que melhor assunto para voltar do que economia? Pois.

O problema da economia, diria chesterton, não é ser irrazoável, é ser quase razoável. Ou seja, muitas vezes não são as respostas em economia que estão erradas - essas quase sempre são excelentes, e às vezes até fazem sentido -, mas sim as perguntas. Toda a resposta é brilhante, a pergunta é que é estúpida.

Uma jornalista coloca como lead numa notícia do Público sobre crise alimentar a seguinte pergunta: como produzir mais e desperdiçar menos? As respostas são todas razoáveis e correctas (deixem os países pobres produzir porque é mais barato, retirem as barreiras ao comércio, liberalizem os preços, deixem-se de peneirices com os transgénicos). Mas a pergunta não é. As crises alimentares nunca se dão por falta de comida, mas por falta de acesso à comida. Dah. Sim, mas deu um nobel. Há quase quinze anos o Amartya Sen ganhou-o por demonstrar que as crises alimentares aparecem quando as pessoas deixam de conseguir comprá-la ou colhê-la, ou seja, quando os seus salários, activos e produção própria não são suficientes para obter uma quantidade de comida suficiente. Por exemplo, as crises alimentares no Bangladesh no início dos anos 70 foram precedidas por aumentos record da produção de arroz. Em simultâneo, deram-se cheias em alguns meses do verão que reduziram a criação de emprego, o que reduziu os salários médios a ponto de estes já não serem suficientes para comprar comida. Mais tarde, uma economista, que não ganhou o nobel, explicou porque é que as pessoas não conseguiam comprar comida (que é a parte mais interessante), mostrando que as crises alimentares são processos longos - demoram muitos anos e consistem precisamente na redução progressiva dos preços dos activos e dos salários reais e consequente vulnerabilização - e tem associados beneficiados/derrotados. Os activos que são vendidos à pressa para poder comer são comprados por alguém a preços excepcionalmente baixos; consegue-se trabalho barato; etc. Tudo parece razoável: se nem todos comem é porque não há comida para todos. Mas a questão não é "porque é que não há comida para todos?", mas "porque é que há comida para alguns?"

E eis outra resposta razoável com uma pergunta estúpida: Paulo Teixeira Pinto disse que nunca como agora o dinheiro teve tanto poder. O dinheiro comprava poder, mas não era o poder. A pergunta estúpida é: o dinheiro compra poder? O dinheiro não compra poder, o dinheiro é poder. Claro que o dinheiro pode comprar poder: mas só porque já é poder. Ou antes: é verdade que o dinheiro compra poder, porque o dinheiro tem a função de facilitar as compras, e uma das coisas que se podem comprar é o poder. Mas o dinheiro não permite apenas facilitar as compras: o dinheiro é uma reserva de valor, e essa reserva de valor permite acumular poder. O dinheiro é trocado por poder apenas porque é poder (ninguém troca algo por outra coisa que valha menos).