Thursday, 24 April 2014

Thinking makes it so

O meu local de trabalho tem uma coisa bem engraçada. Tem escrita num pilar, numa sala de reuniões, a resposta de Hamlet quando o amigo Rosencranz lhe diz que não acha nada que a Dinamarca seja assim tão pouco livre: olha, meu caro, de facto é só quando pensamos que as coisas se tornam boas ou más. É só quando temos consciência da liberdade que podemos chamar a um quarto prisão. Bom 25 de abril. 

Wednesday, 5 March 2014

CRP


"Constituem poderes dos Deputados: 

(...) 

d) Fazer perguntas ao Governo sobre quaisquer actos deste ou da Administração Pública e obter resposta em prazo razoável, salvo o disposto na lei em matéria de segredo de Estado"

A menos que a natureza das aldrabices do PM seja matéria de segredo de Estado, este Governo, parece-me, voltou a cometer uma ilegalidade. Não está mal. Já vamos em quantas, assim de memória?

PS: Vídeo aqui. Aquelas palmas dos deputados do PSD dizem exatamente o quê sobre a maneira como eles se vêem a si mesmos e às suas funções? 

Friday, 14 February 2014

Dia de namorados

Há algo de insuperavelmente incompleto na perfeição. Está aquém. Não tem pontas, não pica, não espeta, não arrisca, não vai além e, por isso, não surpreende. E a gente esquece o que não surpreende. As coisas perfeitas, aliás, são a cópia da nossa própria imaginação - são na melhor das hipóteses aquilo que imaginamos. A imaginação, sendo nossa, é coisa muito aborrecida. É o que não imaginamos que nos apaixona. De outra maneira, estamos a apaixonar-nos por uma parte de nós. E crescer, o processo a que estamos mais ou menos condenados, é deixarmos de nos apaixonarmos por nós mesmos.

É por isso que gosto tanto deste poema do Yeats. Para mim, na minha leitura diletante, é o maior elogio à imperfeição.

Had I the heavens’ embroidered cloths, 
Enwrought with golden and silver light, 
The blue and the dim and the dark cloths 
Of night and light and the half light, 
I would spread the cloths under your feet: 
But I, being poor, have only my dreams; 
I have spread my dreams under your feet; 
Tread softly because you tread on my dreams.

Se fosse vestido com a perfeição, com todo o céu estrelado, completo e escuro, se andasse com ele às minhas costas, a cobrir-me, eu estendia-o para que passasses por cima; mas não, eu, que sou pobre - sou pobre de graça -, tenho sonhos, aquilo que nem controlo, aquilo que é só meu, que só eu vejo, que não faço, e nem sei o que é. Aquilo que sobra à minha imperfeição porque nem é aquilo que sou. Estendo os sonhos no chão, e peço apenas que os pises devagarinho porque são os meus sonhos. É aquilo que não sou, mas é o melhor daquilo que deixei de ser. É o que sobrará na tua ideia: a minha imperfeição, os meus sonhos, que são maiores que a tua imaginação. 

Feliz dia de S. Valentim ao mundo, a partir de Londres. Que não é a cidade de Yeats. 

Tuesday, 4 February 2014

O véu

O teste do véu da ignorância de Rawls é, a meu ver, necessário, ainda que não suficiente, para legislar com justiça. Afinal, faz sentido um grupo fazer leis para os outros que o próprio grupo não gostaria de cumprir? E é isso que sugiro para o caso das tão faladas praxes: se os duxs aceitarem ser praxados pelos caloiros, então eu acho que as praxes não merecem legislação. Que tal? Parece-vos bem? É integrador e tal? 

A ideia é mais ou menos esta:

Thursday, 9 January 2014

einmal ist keinmal


O Kundera, na insustentável leveza, diz que há um provérbio alemão que significa "uma vez não conta", ou "uma vez é nunca". Aquilo que só fizemos uma vez, a primeira e última vez que fazemos alguma coisa, é um não-lugar, é uma Utopia. É um sítio ao qual nunca regressaremos, uma ilha isolada, protegida, a salvo de tudo exceto da nossa memória. E a nossa memória invade essa ilha, invade o sítio onde não voltamos, habita-o, coloniza-o, controla-o, aperfeiço-o, cobre-lhe as sombras. Os outros espaços, os espaços a que voltamos, serão sempre, ironicamente, esboços imperfeitos, sítios inacabados, sítios que a nossa memória não pode mexer, melhorar, sítios piores.
 
A partir de março, volto a Londres. Volto ao sítio onde vivi durante vários anos e de onde voltei há seis. Vou desafiar a minha memória a viver no mesmo sítio que eu. Recebi uma proposta profissional que estará próxima do irrecusável. Deixo um organismo público português para um organismo público inglês. A ironia de passar de um organismo público português para um inglês não é aparente. É uma caricatura do tempo histórico que atravessamos.

Mas vou feliz, e voltarei.

Tuesday, 3 December 2013

Sem poção mágica, a coisa pode correr mal

O primeiro-ministro da Ucrânia - um russo, que não fala ucraniano, e que manda num país que está nos limites geográficos de uma Europa que se precisava de abrir e expandir antes que se consuma numa lógica autofágica - chama-se Azarov. O governador do Banco Central do Chipre na apogeu do caos financeiro chamava-se Panicos. A Europa parece-se cada vez mais com uma aventura do Asterix.

(PS: nem de propósito, sobre lógicas autofágicas, José Gomes Ferreira diz que "a austeridade é um remédio que tem de se tomar até ao fim". é como a cicuta, portanto. se não se tomar até ao fim, pode não fazer efeito)

Monday, 2 December 2013

Da dependência

Nenhum país é independente. Ninguém é independente. A questão nem é honesta se for colocada nestes termos. Todos somos dependentes de alguma coisa. E, acho eu, ainda bem. Não temos um problema de independência, porque não existe tal coisa como um problema de independência. Temos, sim, um problema de igualdade. Grave. Aliás, temos um problema de desigualdade. O problema não foi termos perdido a soberania. O problema foi termos perdido a soberania para com países perante os quais não nos comportamos como iguais. 

Por isso, a questão do feriado parece-me de relativa pouca importância. 

Tuesday, 5 November 2013

Gaile


Tinha uma data de coisas para dizer, mas esta história, não resumindo, atalha. Esta rapariga é a Gail Russell. Fez um filme de terror nos anos 40, chamado The Uninvited, que eu vi neste fim de semana. No filme, faz de uma rapariguinha tímida e assombrada pelo passado. Na vida real, era uma rapariguinha tímida e, de certa maneira, assombrada pelo futuro. Era de tal maneira tímida que precisou de começar a beber para conseguir representar aquele papel de rapariga tímida. Vai daí desenvolve um novo vício que levaria à sua morte. Há que ver isto como é: há certas coisas que, sendo nossas, não nos deixam fazer de nós próprios. 

Friday, 1 November 2013

Ainda Carrilho

Ontem, durante uns minutos, o DN permitiu a publicação de comentários à crónica semanal de Carrilho. E um deles começava assim: “Cale-se, seu abusador de mulheres!”. Tudo neste comentário, anónimo, me parece absolutamente brilhante. É brilhante nos termos. O “cale-se!”, que é ao mesmo tempo injurioso e formal, é agressivo mas é cordato, é pessoal mas é dito por um anónimo. O “abusador”, aportuguesamento recente do abuser, denota uma aculturação anglo-saxónica, todavia incompleta, porque utilizado para denegrir publicamente a vida privada de alguém. O “mulheres” demonstra precisão – eu sei que é mais do que uma – e indefinição – mas quantas são?, luz e bravura de quem volta da caverna platónica para esclarecer o mundo, mas também escuridão e derrotismo de um Turner, de quem aceita as nuances de um homem face ao desconhecido, face ao sublime.

Tem ponto de exclamação mas é questionável, é preciso mas incompleto, é irado mas tem pausa. E é o melhor exemplo que posso encontrar para o que os pós-modernos chamam a “hiper-realidade” deste caso Carrilho. Neste sentido, a vida de Carrilho é mais filosófica e atual do que a sua filosofia.

Tuesday, 29 October 2013

Por quem os preços dobram

Uma empresa monopolista não pratica o preço que quer - pratica qualquer coisa como o preço mais alto que as pessoas estão dispostas a pagar. Quando essas pessoas estão mais pobres, a empresa monopolista, se quiser continuar a ganhar dinheiro, baixa o preço. E pode ter de baixar bastante. Uma empresa num mercado muito concorrencial também não pratica o preço que quer - pratica o preço que os outros praticam, e todos praticam um preço baixo. Como este preço já está próximo do custo, não tem muita margem para baixar para responder ao facto de as pessoas terem menos poder de compra.
 
Um indício que fala montanhas sobre o grau concorrencial de muitos setores em Portugal é o que está a acontecer aos preços de uma data de produtos. Eu sei que pessoas mais pobres também significam custos do trabalho mais baixos, o que poderia dar maior margem a setores concorrenciais para baixar preços. Mas há claramente setores onde os preços estão a cair muito mais que outros, e diria que os setores onde os preços estão a cair mais até utilizam relativamente pouco trabalho.
 
A seguir.

Wednesday, 23 October 2013

Depende do ponto de vista, ou o fim da Utopia

Fui à Almedina à procura da Utopia - não há, não há em lado nenhum, parece que só na Gulbenkian - e perguntei como estava a correr a venda do livro do Sócrates. O livreiro respondeu que dependia do ponto de vista. Depois é que me lembrei o quão antagónica é a imagem que as pessoas têm de Sócrates. Não podia ter respondido outra coisa: depende do ponto de vista! Voltámos, em boa medida, ao tempo da anedota do barbeiro que, de lâmina afiada, pergunta ao freguês o partido político, e ele responde: o mesmo que o seu. O mesmo que o seu, ou o fim da Utopia nas falidas livrarias portuguesas.

Sunday, 20 October 2013

As coisas que importam

Uma entrevista brejeira, variando entre o mau gosto, a falsa intimidade e um realismo político assustador; a primeira entrevista política em muitos anos que li de um trago, com recortes absolutamente certeiros e maior política em cada "merda" dito do que em cada palavra deste orçamento de estado. E isto é muito, muito importante, para a história das leituras que eram feitas em 2011 sobre a natureza da atual crise: "... decidiu-se que Portugal não ia pedir ajuda. Houve uma intervenção manhosa do primeiro-ministro da Holanda e eu, muito irritado, até lhe pedi que dissesse quanto é que Portugal lhe devia, porque não estava para ficar-lhe a dever um tostão nem aturar-lhe o calvinismo reles."
 
A ser lido pela direita patrioteira de cócaras perante a Europa. A mesma direita que, em 2011, deslumbrava-se com a vinda do FMI e que, para hoje esconder o seu fracasso, prefere declarar guerra ao seu próprio povo. A direita que prefere manter a farsa da alegada culpa desse mesmo povo a admitir a sua imensa ignorância sobre a natureza desta crise.