Wednesday, 16 October 2013

Caras de pau

Um membro do parlamento (sim, vai à inglesa que a coisa é grave) acaba de dizer na tv que este foi o corte na função pública mais reduzido desde 2010. Pois. Olha, por comparação com 2010, um funcionário público competente, a meio da carreira, perdeu pelo menos 26% do seu rendimento, em termos nominais - qualquer coisa como um terço, contando com a inflação. Assim de repente: um subsídio em duodécimos comido pelo imposto extraordinário (7%); o prémio de produtividade (7%, tipicamente um salário mensal, dependendo naturalmente dos serviços) e 12% agora com este novo corte. Estou a dar de barato o congelamento de carreiras.

Um terço - a que se soma o aumento dos impostos sobre o consumo, da utilities e dos transportes públicos. Quanto é mesmo que, em 2011, a malta me dizia que o rendimento disponíveis dos funcionários públicos ia desvalorizar numa eventual saída do euro, em consequência de uma negociação musculada com os credores internacionais? 

Sunday, 6 October 2013

As ruínas do romantismo podem ser românticas?

Estive em Ronda, a possibilidade urbana e turística do romantismo - labirintos do homem construídos no topo de um rochedo, com 40 quilómetros de raio de isolamento -, e sentei-me no McDonnald's a beber um café. À minha frente, pude apreciar o avançado efeito das térmitas da moda nos calções de ganga das rapariguitas da cidade, e pensava que, até há pouco tempo, eu teria de fazer um enorme esforço para aceder àquelas partes do corpo feminino. E nem assim me sinto menos cansado. É possível que tudo isto seja de um conservadorismo insuportável, mas também pode não ser.  
 
Há uns tempos, no National Geographic, vi um documentário onde se explicava que o humano gosta tanto de açúcar porque não há nenhum veneno na natureza que seja doce. A indústria moderna pegou neste acidente evolutivo e inundou-nos de possibilidades de nos sentirmos seguros. Paralelamente, fomos perdendo saúde com tanto açúcar. Esta crítica à Indústria é o que permite não me acusar frontalmente de conservadorismo.
 
Ainda em Ronda, a tal capital-ruína de Espanha que sobrou ao romantismo do século XIX para pode vender-se como souvenir aos turistas (e vendeu-se bem a mim, que é bonita até mais não), caminhava uma das tais raparigas na direção da minha esplanada. Estranhei que ela tivesse uma t-shirt, larga, caídas sobre os tais calções, com um enorme bouquet de flores estampado. À medida que se aproximava, pude perceber que tinha umas letras vermelhas no meio do bouquet. Diziam: LOL.

Sunday, 22 September 2013

Do tempo

- Escolhe uma semente, vá; - Esta!; - Mas olha que essa só nasce daqui a um ano, filha; - Um ano?; - Sim; - Um ano é muito, mãe? 

Ouvido, hoje, na secção jardim do AKI. As crianças podem ser impacientes, mas só um adulto pode ter pressa. 

 - Quando ficar sóbrio mato-me. E é por isso que eu não paro de beber. Não tenho coragem de ficar sóbrio. 

Ouvido, ontem, num anexo à sala principal do teatro de Almada, numa peça menos conhecida do Strindberg, o Pelicano. Só um bêbedo pode realmente ter medo da sobriedade, porque é o único que está distanciado o suficiente para a conhecer.

Friday, 13 September 2013

Amor sem esperança

O amor sem esperança não tem um fim, li hoje e quem o escreveu, há oitenta anos, foi Sandor Marai. O amor recém-nascido de Picasso pela Dora Maar, em 36, três anos depois do Marai ter escrito aquilo, agora que penso nisso, estava, pois, e na formulação de Marai, repleto de esperança, a explodir de esperança, conforme pode ser visto na coisinha mais fantástica que pude ver nestas férias, em Málaga - que Picasso deixou aos 19 anos para nunca mais voltar:

Tuesday, 20 August 2013

if she, my liege, can make me know this clearly, I'll love her dearly, ever ever dearly

Era uma vez uma Helena que foi criada por um autor tão grandioso como Homero, mas para figurar numa peça de tão pouca importância que o Harold Bloom, por omissão, considerou-a uma de entre duas ou três que não são obras primas mundiais. Ninguém sabe se a Helena de Shakespeare era bonita como a de Tróia. Sabemos que era médica, e que salvou o poderoso rei de França de uma morte certa. Também sabemos que era casada com um rapaz fogoso e sonhador, e que o casamento tinha praticamente tudo para não dar certo. A certa altura, o rapaz alista-se para combater numa guerra estrangeira, de que desconhecia as causas, só para se ver livre dela. Apaixonada, ela envia-lhe uma carta pedindo que volte, mas Bertrand responde que só será dela se Helena lhe der um filho e se lhe puder exibir um anel de família, que o rapaz guardava consigo. Dado que estava numa guerra, era difícil que a prerrogativa se concretizasse. Helena disfarça-se e entra no cenário de guerra, combina e troca com uma rapariguita por quem Bertrand entretanto se apaixonara e queria desflorar, e acaba por recebê-lo na cama, às escuras, onde o rapaz lhe faz uma jura de amor, selada com o anel, e engravida-a. 

Já estou farto de falar de como, para Chesterton, a verdadeira descoberta é a do explorador inglês que sai de Portsmouth e, apanhado no mau tempo, acha que chegou às Índias mas está apenas de volta a Inglaterra. É cada vez mais preciso fechar os olhos.

Sunday, 18 August 2013

Morte no armário

Violence, when it's in a house, (is) like seeing the clothes in a tree after an explosion. You may be prepared to see death but not the clothes in the tree.

Disse-me hoje o Philip Roth, no the plot against america. A morte que nos inquieta é a morte que se deduz dos vestígios de roupa espalhados desordenadamente nos troncos de árvores sólidas, centenárias, indiferentes. O que nos inquieta no fim de uma relação é a roupa suspensa nos armários, a roupa intacta, inteira, vestível, que não será vestida. O que perturba na morte em Roth é o que será feito do corpo que vestia aquela roupa destruída; o que perturba no fim de uma relação é o que será feito do corpo que vestia aquela roupa intacta. É essa outra forma de ver a contradição insanável de um fim de relação: a roupa foi deixada intacta, mas ninguém a vestirá. 

Tuesday, 16 July 2013

Much ado about very little



Quer-me parecer que, a partir do minuto 14.42, está a chave para perceber os próximos dias - e, ainda mais complicado, o de hoje. Para perceber porque é que o PS vai assinar o acordo. Para perceber que o BE e o PCP parecem estar distraídos quando acusam o PS de incoerência e de desbaratar o que conseguiu obter em dois anos. Para perceber que as eleições antecipadas, para o PS, implicariam ter de falhar com a promessa  do minuto 14.42. E para perceber que o único governo capaz de manter esta promessa até se imolar totalmente é o actual. Não explica nada mais, mas explica isso, e já explica bastante.

Thursday, 11 July 2013

Ilusão

Nos últimos dias tive a sorte de encontrar dois grandes posts no facebook e de ter acabado de ler um livro de Coetzee, todos sobre a ilusão.

Rui Zink escreveu, no seu mural, sobre Lady Macbeth:

Lady Macbeth ... sabia que o cheiro do sangue era mais difícil de lavar das mãos do que o cheiro a merda. Mesmo que este fosse real e o outro (o cheiro do sangue) fosse imaginário. Lady Macbeth era sábia: ela sabia, entre outras coisas, que nada é tão real como aquilo que imaginamos.

Perante um sangue imaginário, que só Lady Macbeth cheira, o mundo, insubstancial na sua mudança permanente, acha que ela está louca. O mundo - quem assiste à peça e além - achará, porventura, que incomodar-se com o cheiro a merda degradável seria mais razoável do que incomodar-se com o cheiro da permanência da culpa e da morte.

Hoje Joaquim Cardoso Dias cita Marguerite Duras numa frase a que estarei condenado a regressar, como o casal Macbeth regressará sempre à imagem de uma adaga suspensa sobre eles: 

Há ilusões que se parecem com a luz do dia;
quando acabam, tudo com elas desapareceu.

Ilusões que dão momentaneamente realidade à realidade que perece, todos os dias, como a merda. Ilusões - o amor, a fé, o poema - que não se tornam reais com a realidade, mas que tornam realidade as coisas que achamos, erradamente (diria, ilusoriamente), reais. Toda a beleza se manifesta como luz, e não como objeto iluminado. Quando a ilusão se vai, tudo o que é real desaparece.

Por fim, Coetzee denuncia, no waiting for the barbarians, a história de um império num tempo indefinido que luta contra inimigos imaginários porque dessa luta - da ilusão que vem de uma crença de ameaça permanente - depende a sua própria sobrevivência. O império acaba derrotado pela sua própria lógica, condenando à morte milhares de soldados em buscas inglórias dos bárbaros, que nunca aparecem. Escreve Coetzee:

Empire has created the time of history. Empire has located its existence not in the smooth recurrent spinning time of the cycle of the seasons but in the jagged time of rise and fall, of beginning and end, of catastrophe. Empire dooms itself to live in history and plot against history

Para o bem e para o mal, a ilusão não é cíclica, tem um começo e tem um fim. Ao contrário de tudo o resto, que ora está sob a luz do dia, ora está à sombra. 

Wednesday, 10 July 2013

2º resgate

A única razão que me parece plausível é que o presidente não quer Portas com tanto poder, e também não quer Seguro com maioria absoluta em 2014. Se for assim, este é o segundo resgate do presidente ao PSD.

Wednesday, 3 July 2013

O que vocês queriam sei eu

Estou o mais longe possível de ter simpatia pelo personagem, mas esta gente toda que anda a chamar irresponsável ao Portas não é a mesma que o chamava cobarde há uns tempos e dizia que ele não clarificava se estava dentro ou fora do governo?

Tuesday, 2 July 2013

Da incerteza

O Einstein dizia que não sabia com que armas seria combatida a 3ª guerra mundial, mas que tinha a certeza que a 4ª seria com pedras e paus. Com a política nacional a coisa é inversa: sabemos quem vai ganhar as eleições legislativas deste ano, não sabemos é quem vai ganhar as do próximo. E é assustador pensar nisso.