Estou o mais longe possível de ter simpatia pelo personagem, mas esta gente toda que anda a chamar irresponsável ao Portas não é a mesma que o chamava cobarde há uns tempos e dizia que ele não clarificava se estava dentro ou fora do governo?
Wednesday, 3 July 2013
Tuesday, 2 July 2013
Da incerteza
O
Einstein dizia que não sabia com que armas seria combatida a 3ª guerra
mundial, mas que tinha a certeza que a 4ª seria com pedras e paus. Com a
política nacional a coisa é inversa: sabemos quem vai ganhar as
eleições legislativas deste ano, não sabemos é quem vai ganhar as do
próximo. E é assustador pensar nisso.
Monday, 17 June 2013
Blur
A natureza tem horror ao vazio. E a velhice - enquanto amadurecimento - ocupa um espaço particularmente degenerado na natureza do homem. Se a vida não tem sentido último, o amadurecimento é a forma aperfeiçoada do vazio. Serve para falar deste vídeo absolutamente maravilhoso onde os Blur, reunidos, cantam de modo aperfeiçoado, perfuntório e sublimado, a essência do fim - que é assim uma essência sem substância.
Tuesday, 11 June 2013
Metamorfoses
Apolo, deus do sol, exímio manejador do arco, vai de fazer pouco do cupido, deus na sombra que atira sem ver. Cupido, vingativo, acerta em Apolo com uma flecha das normais, das que apaixonam (de ponta afiada de ouro); a Dafne, ninfa lindíssima, acerta com uma flecha que escorraça, de ponta de chumbo arredondada. Dafne foge aflita pelo mato (a corrida despe-a, o vento sopra os cabelos para trás), e Apolo persegue-a sem resistir: o amor é a razão de te perseguir! Mas, vendo-a correr como se não houvesse amanhã, pelo mato, preocupa-se (Ai de mim! Temo que caias de cara ao chão, que as sebes arranhem as inocentes pernas, te magoes por minha culpa!) e propõe-lhe o seguinte: Corre mais devagar, abranda a tua corrida. Eu seguir-te-ei mais devagar.
É verdade que Apolo alcança Dafne e ela, porque pode, transforma-se em árvore. Mas o ponto fundamental é este: Apolo não consegue evitar perseguir Dafne, mas consegue propor-lhe persegui-la mais devagar. O bem e o amor não são nada a mesma coisa - nem sequer estão no mesmo nível. Mas o amor faz-nos querer fazer pequeno o mal que o amor faz. Persigo-te, e vou-te apanhar porque sou mais rápido que tu, não há nada a fazer quanto a isto!, mas proponho fazê-lo mais devagar para que não te magoes. A bondade, se quisermos, é o que falta ao amor para ser amor e não ser maldade.
John William Waterhouse, 1908
Estou a adorar ler as metamorfoses.
Friday, 7 June 2013
Chuva branca
Se tradicionalmente os modelos econométricos (aquela coisa do excel mas com nome de boneco sexual para nerds kinkies) se socorriam do ruído branco, agora chegou a vez da chuvinha.
Para quem lê este blog e tem saúde mental, o bottom line do que quero dizer é: esgotaram-se as desculpas e o desconhecido tornou-se tão desconhecido para os curandeiros modernos para era para os antigos, aqueles que faziam danças da chuva.
PS: He who makes a beast of himself gets rid of the pain of being a man.
PS: He who makes a beast of himself gets rid of the pain of being a man.
Wednesday, 22 May 2013
Monday, 13 May 2013
Tuesday, 23 April 2013
Sobre as recentes nomeações para o governo...
...tenho uma questão e uma citação:
Para a semana tenho de ir a Bruxelas, e gostaria de poder orientar a minha vida. Se continuar a apoucar o governo de forma particularmente rude, poderei vir a ser convidado a integrá-lo?
E a citação é do Garrett: "Foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde…."
Saturday, 20 April 2013
Tirania
"Sim, é verdade que o meu governo é criticável, mas, ainda assim, há pelo norte do país uns estrangeiros latifundiários que"..., explicou-me um húngaro razoável em Bucareste quando lhe perguntei pela situação do país. Toda a tirania tem cabido em homens razoáveis que começam a falar em latifundiários estrangeiros. Acho eu.
Fui em trabalho a Bucareste. O palácio que Caucesco mandou construir, o segundo maior edifício do mundo, é um enxerto muralhado no coração de uma cidade que rasgou, a prédios de betão, longas e largas avenidas que escondem o bairro histórico, religioso, burguês e popular. Logo que entrei no táxi perguntei pelo palácio. Sempre que via um edifício alto, perguntava ao taxista se era aquele, e ele pedia-me pacientemente para esperar. A certa altura apontou entusiasmado para o sítio onde Caucesco teria sido morto - afinal, era apenas uma lenda, ele foi morto numa base militar, mas não deixa de ser sintomático que o taxista tivesse mais vontade de me mostrar onde Caucesco tinha sido morto, e falar-me de como o Mourinho era um tipo arrogante ou rir-se de mim quando perguntei pelo cinto de segurança, do que mostrar-me o palácio que o tirano construiu no coração da cidade dele.
Nos Irmãos Karamazov, que calha andar a ler, o estróina Piotr Aleksandrovitch admite, a certa altura, que, se calhar, também tem alojado dentro de si um espírito mau, de pequeno calibre; aliás, porque se fosse maior, escolheria outra casa. E dá que pensar que a tirania é um reduto grandioso. É a casa onde cabe o espírito mau de grande calibre. O esconderijo, sumptuoso e vulnerável, grandioso e enclausurado, onde habitava um homem que, percebi jantando com um colega romeno, tinha a formação de um Relvas e a ambição de um Barroso. Como é que homens destes chegam ao poder e como é que deixam que construam casas como esta? A questão talvez esteja mais naquilo que existe que distrai de olhar para a casa enquanto ela é construída. Há para aí uns estrangeiros...
(E, por falar em estrangeiros, liguei a TVe vi que os romenos também têm um "Romania's got talent": Não é surpreendente que um "conceito", um produto televisivo, baseado na ideia que um certo país em específico tem talento, possa ser vendido e replicado para todos os países? O capitalismo flirta com o patriotismo como uma vaca de peluche com dinheiro dentro. E assim um dia aparecem os latifundiários estrangeiros no norte do país...)
Friday, 29 March 2013
Luz
A entrevista a Sócrates tem o condão de encerrar em si mesma todas as contradições da esquerda liberal. A genialidade - se posso dizer assim - de Sócrates não está em resolver essas contradições, mas em expô-las com clarividência num panorama político onde, de outra forma, só restam sombras. Sombras muito ténues que sobrevivem inesperadamente às luzes do mundo, que se voltaram há imenso tempo para outro lado qualquer. De Cavacos, Seguros, Relvas, Portas, gente que vagueia numa História que os derrotou mas que que continuam inexplicavelmente a fazer.
O problema da esquerda liberal - a esquerda onde votei, sem equívocos e arrependimentos, no tempo de Sócrates - é ter o diagnóstico inteiramente certo e, ainda assim, conseguir falhar nas receitas. A esquerda liberal está inteiramente convencida que a explicação da crise é europeia e sistemética. A esquerda liberal denuncia acertadamente a arquitetura da zona euro, que retirou os poderes de política económica aos governos nacionais, democraticamente eleitos, impedindo-os de intervir face a um processo de acumulação de excedentes comerciais insustentáveis no centro, e défices da periferia, sem que oferecesse uma alternativa de política económica centralizada e responsabilizável democraticamente. Ao mesmo tempo, a mesma esquerda defende que é possível continuar a sujeitar a periferia à lógica dos memorandos, ainda que renegociados. Uma espécie de castigo mais ligeiro para crimes que não foram cometidos.
Esta contradição, em Sócrates, é visível quando aponta tão certeiramente os holofotes ao júbilo que a vinda do FMI causou em tanta gente deste burgo - "quem tem medo do FMI?", perguntava-se, pois que vinham arrumar a casa e fazer o que os de cá não tinham coragem para fazer -, ao mesmo tempo que consegue defender que o PSD foi além da troika e que o memorando original não previa tirar dois pagamentos aos pensionistas e aos funcionários públicos. O PSD não foi além da troika. A única forma de cumprir as metas nominais para a despesa pública que lá estavam seria através da redução das prestações sociais e dos salários da função pública. O único resultado credível para o memorando seria o desmantelamento do estado social, o empobrecimento generalizado do país e a transferência de recursos de um classe social para outra. Não há, a meu ver, defesa possível para o memorando original que não implique uma legitimação do memorando atual, e da política do governo.
Tuesday, 19 March 2013
Caricatura fiel
Que espectro se abateu sobre a Europa nestes dias em que quase foi votado um confisco às contas bancárias dos cipriotas? O confisco é um acto de incompetência e miopia política? Põe em causa a precária torre de euros empilhados onde balança o sistema financeiro? E o que é a austeridade? O que é que se andou a fazer e a defender nos últimos dois anos? Que ideia é esta de que é possível que todos os estados dentro de uma união monetária possam poupar simultaneamente, e que daqui possa resultar uma maior probabilidade de pagarem-se as dívidas de cada um deles? É competência política? É visão longa? Respeita qualquer razoabilidade? Permite cumprir com os objetivos de salvar a Europa? De salvar a Alemanha? De salvar a banca?
Também choca que a medida proposta pelo eurogrupo coloque o peso do ajustamento financeiro sobre um punhado de depositantes que não pode fugir? Mas o que tem feito a austeridade, senão colocar o ajustamento do desequilíbrio comercial e do desarranjo arquitetural do euro sobre a classe dos que não fogem - dos trabalhadores e dos pensionistas? O confisco no Chipre transfere riqueza dos cidadãos para a banca? Mas o que foi o BPN? Bom, o BPN custou cerca de 5 mil milhões de euros ao estado português. Se dividir por 10 milhões de portugueses, dá 500 euros por cada um. A taxa proposta no Chipre era de cerca de 6,5% (estou a falar de cor, não me deu o vagar de ir ver). Para chegar a 500 euros, era preciso que cada cipriota tivesse no banco 7700 euros. Quantos portugueses - e que portugueses - têm hoje em dia, em depósitos, 7700 euros? E o défice na Irlanda, foi o quê? 35% do PIB. Quem é que vai pagar isso?
Se não é a irrazoabilidade, a estupidez e a insensibilidade social que verdadeiramente choca no caso do Chipre, o que é? É a caricatura? É preciso uma caricatura, um Relvas, um eurogrupo de chanfrados, um governador de banco central chamado Panicos, um macaquinho com óculos a descascar a banana do capitalismo e a atirá-la para onde as pessoas escorreguem e batam com a tromba no chão?
Não havia necessidade.
Friday, 1 March 2013
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