Tuesday, 19 March 2013

Caricatura fiel

Que espectro se abateu sobre a Europa nestes dias em que quase foi votado um confisco às contas bancárias dos cipriotas? O confisco é um acto de incompetência e miopia política? Põe em causa a precária torre de euros empilhados onde balança o sistema financeiro? E o que é a austeridade? O que é que se andou a fazer e a defender nos últimos dois anos? Que ideia é esta de que é possível que todos os estados dentro de uma união monetária possam poupar simultaneamente, e que daqui possa resultar uma maior probabilidade de pagarem-se as dívidas de cada um deles? É competência política? É visão longa? Respeita qualquer razoabilidade? Permite cumprir com os objetivos de salvar a Europa? De salvar a Alemanha? De salvar a banca?

Também choca que a medida proposta pelo eurogrupo coloque o peso do ajustamento financeiro sobre um punhado de depositantes que não pode fugir? Mas o que tem feito a austeridade, senão colocar o ajustamento do desequilíbrio comercial e do desarranjo arquitetural do euro sobre a classe dos que não fogem - dos trabalhadores e dos pensionistas? O confisco no Chipre transfere riqueza dos cidadãos para a banca? Mas o que foi o BPN? Bom, o BPN custou cerca de 5 mil milhões de euros ao estado português. Se dividir por 10 milhões de portugueses, dá 500 euros por cada um. A taxa proposta no Chipre era de cerca de 6,5% (estou a falar de cor, não me deu o vagar de ir ver). Para chegar a 500 euros, era preciso que cada cipriota tivesse no banco 7700 euros. Quantos portugueses - e que portugueses - têm hoje em dia, em depósitos, 7700 euros? E o défice na Irlanda, foi o quê? 35% do PIB. Quem é que vai pagar isso? 

Se não é a irrazoabilidade, a estupidez e a insensibilidade social que verdadeiramente choca no caso do Chipre, o que é? É a caricatura? É preciso uma caricatura, um Relvas, um eurogrupo de chanfrados, um governador de banco central chamado Panicos, um macaquinho com óculos a descascar  a banana do capitalismo e a atirá-la para onde as pessoas escorreguem e batam com a tromba no chão?  

Não havia necessidade.

Friday, 1 March 2013

Wednesday, 20 February 2013

Cala a boca, eu sou tão democrata como tu

O melhor título para a História que conte os braços abertos que as nossas "elites" lançaram ao FMI, rejeitando qualquer discussão e análise sistemática das intervenções anteriores do FMI, e qualquer discussão sobre a origem e natureza europeia da crise, terá de ser o paradoxal e medieval "cala a boca, eu sou tão democrata como tu". 

Essa mesma História terá, ainda, de iniciar-se com este discurso de Sócrates de 19 de março de 2011, que desmascara completamente a ideia que para aí anda que este governo surpreendeu toda a gente e está a ir além do que era previsível durante a campanha eleitoral:

"Entre nós e o FMI há dez milhões de portugueses e há um país que pagaria por isso (...) A agenda do FMI e a agenda da ajuda externa levaria o nosso país durante muitos anos a ter de suportar aquilo que são programas ... que põem em causa não apenas o nosso estado social, mas põem em causa também aquilo que é a qualidade de vida de muitos portugueses (...) Esses programas ... exigiram ... que reduzissem o salário mínimo e nós não queremos isso para Portugal. Que terminassem com o 13º mês ou com o 14º mês e nós não queremos isso para Portugal. Que despedissem funcionários públicos e nós não queremos isso para Portugal. Mas verdadeiramente o que está na cabeça de muitos desses dirigentes políticos quando ao longo dos últimos meses sugerem que o pedido de intervenção do FMI era melhor o que está na cabeça deles é verdadeiramente cumprir a sua agenda liberal justificando-a com o FMI. O PSD apresentou um projeto de revisão constitucional ... Está ali todo um programa de governo. E fundamentalmente o que o PSD propõe é que o SNS deixe de ser ... tendencialmente gratuito. Eu sei o que eles querem. O que eles querem é que haja um SNS apenas para os pobres. E depois propõem que o Estado não tenha a obrigação de ter um sistema público de educação... Eles querem educação boa para aqueles que têm rendimento e um sistema publico para aqueles que não têm rendimentos."

Tuesday, 12 February 2013

A carne sub-prime

Esta história dos hamburgueres aldrabados com carne de cavalo pode ser uma imagem para a crise financeira que vivemos. Uma crise que começou com o empacotamento de hipotecas com baixo valor e alto risco, misturadas com hipotecas razoáveis em embalagens com nomes pomposos e um marketing sugestivo e legendas que afirmavam tratar-se de ativos financeiros garantidos por ativos físicos - as casas subjacentes às hipotecas. O problema é que as casas valiam tanto como a carne de cavalo. Este empacotamento era todo feito perante e por causa da incapacidade de ação dos reguladores e dos poderes políticos em geral. Os bancos retalhistas e os supermercados garantiram, por sua vez, que foram surpreendidos e que não sabiam o que é que estava dentro das embalagens que vendiam aos clientes.
 
O discurso marialva contra a ASAE, no passado, tem perfeito eco no discurso que defende o desmantelamento do estado social e que defendeu, em temos de menos pudor e maior verdade, o aligeiramento da regulação financeira. A regulação e a interferência pública é imprescindível para defender o bem-estar dos mais fracos, como se tem visto quer no exemplo da crise financeira, quer no exemplo da crise da carne de cavalo. A ausência de regulação ativa e eficaz, com a ideia de que o mercado tudo auto-regula, tem-se traduzido na multiplicação de espaços de produtos biológicos e controlados para os ricos e nas pressões sobre os preços e sobre a qualidade da produção em massa para os mais pobres - a replicação, aliás, do sistema pré-moderno do provador que garantia a adequabilidade do produto servido à mesa das classes altas.
 
Para os outros, Malthus resolve.

Saturday, 9 February 2013

Glyptotek

Passei o fim de semana passado em Copenhaga, uma cidade que vale a pena revisitar - talvez não no sentido literal, mas de pensar um bocado naquilo. 

O Glyptotek é um museu em Copenhaga que expõe uma soberba coleção de escultura - e é mesmo para ler soberba com os dois significados. Entendo totalmente o fascínio por colecionar escultura. Não acho que seja muito diferente do que levou o Hugh Hefner a montar uma indústria que, sistematicamente, despe mulheres. E não quero mesmo soar mais profundo do que manifestamente não consigo ser, mas a escultura é uma espécie de pornografia das emoções. Tudo é inteiramente simbólico e evidente, ao mesmo tempo. Esconde, mas não controla. É pequeno, mas é maior. 

Existem três esculturas no Glyptotek onde alguém segura um globo pequeno e maior. A primeira é Penelope, a mulher que espera o regresso de Ulisses e, para se manter fiel, adia entregar-se a um dos vários pretendentes dizendo que só o fará quando acabar de tecer um sudário para o sogro. Todas as noites ela desfaz o que tece durante o dia, e, na escultura de J.A. Jerichau, um esculturor dinamarquês do século xix, ela segura numa mão, parecendo quase orgulhosa, o novelo que contém a sua fidelidade e resiliência. Um novelo que é a forma domesticada, humana, de uma infinidade de formas possíveis para aqueles fios todos se enrolarem.  É a coisa pequena mais ameaçadora que ela podia segurar, uma ideia que lhe cabe na mão mas que é capaz de enrolá-la.  

A segunda escultura é a da deusa, julgo que suméria, da fertilidade, que segura uma romã. A romã que tem lá dentro uma imensidão de sementes e um líquido vermelho parecido com sangue. Contém lá dentro a nova vida para os outros, e morte à volta.  

A terceira é a do cupido, do Claudius Marioton, do Salón, e chama-se, na legenda em Inglês, "Eros making the world turn according to his pleasure". A escultura está colocada de modo a que o visitante a vê primeiro de costas. E aí parece uma criança entretida a escarafunchar o brinquedo mundo com uma seta. De frente, um esgar cruel mas compenetrado dá-nos a sensação que ele tem controlo sobre o que faz. Mas não sei se será verdade. Não sei se é verdade que é o amor primário que faz girar o mundo a seu bel prazer, ou se é o mundo que gira tão depressa que essas coisas ficam soterradas, pela simples força da gravidade, no seu núcleo. Incapaz de verdadeiramente sair e fazer girar o mundo, mas simultaneamente nuclear e residual à  rapidez e força com que o mundo gira. Nesse caso, nem o pequeno deus do amor controla aquilo que segura?

Saturday, 19 January 2013

Tuesday, 15 January 2013

Competitividade

A crise faz-me repensar as minhas ideias sobre a Economia. Em particular, isto de andar a defender que a deflação doméstica (reduzir salários e reduzir globalmente a despesa) não pode gerar ganhos de produtividade talvez seja de repensar. Em particular, quer-me parecer que estamos a chegar a um ponto em que a redução sistemática dos salários está a resultar em tornar-nos extraordinariamente competitivos a produzir pobreza.

Friday, 11 January 2013

Timão e os cães

É assim mesmo que se representa Shakespeare. Da forma que vi ontem, em Almada, representarem Timão, o Misantropo. E que bom que Almada se redima da medíocre representação do Mercador de Veneza, que por lá se arrastou há uns meses, oferecendo-nos com este Timão de Atenas o seu exato contraste. E se o Mercador é um dos grandes textos que Shakespeare escreveu, Timão não é - e é tanto maior a ironia e a felicidade que tenham achado necessário inovar sobre o primeiro, mas mantido o segundo intacto, deixando os atores munidos apenas de uma tradução sublime e dos extraordinários poderes de representação de um Luís Vicente e de um Marques d´Arede. Gente que sente tudo de Shakespeare exceto medo.

O Timão, resumidamente, é isto: homem rico dissipa riqueza oferecendo presentes aos amigos; quando precisa destes amigos, eles negam-no três vezes; Timão toma refúgio comendo raízes, a base da terra, numa floresta, mas encontra ouro; com ouro financia um exército para invadir Atenas e prostitutas que a  infestem de doenças. Timão morre, mas o exército vence.

Timão é bom homem? Eu acho que não. Tenho entretido a ideia de que não há bondade que seja dissociada do humano. A bondade que não esteja à altura da complexidade das pessoas não é bondade, é desistência - que bem trouxe Timão ao mundo se dissipou a sua capacidade de agir sobre ele? A bondade tem de ser consequente, e para ser consequente tem de sobreviver, e para sobreviver tem de ser racional. E, para ser racional, tem de ser humana. Aquela discussão que agora surgiu por causa do cão que matou a criança parece-me um ótimo exemplo de como a defesa da bondade sem o primado do humano é inconsequente - é possível e desejável que se pratique o bem para com os cães, mas se pusermos em causa o humano estamos a pôr em causa a própria bondade ao cão: que bondade guarda o mundo animal para com os cães?

E isto lembra-me a minha parte preferida da peça, que, na verdade, são duas. O filósofo cínico Apemantus tenta avisar Timão de que ele está a ser enganado pelos amigos, recorrendo a uma metáfora curiosa. Em Português moderno até faria sentido dizermos que alguém anda a papar outra pessoa, mas em Inglês provavelmente não faz sentido. Diz Apemantus "O you gods, what a number of men eat Timon, and he sees 'em not!". Mais tarde, quando Timão está exilado e fala com dois bandidos, tenta convencê-los que eles têm tudo para sobreviver na floresta. A resposta de um dos bandidos é:

"We cannot live on grass, on berries, water,
 As beasts and birds and fishes."

E Timão responde: "Nor on the beasts themselves, the birds, and fishes; You must eat men".

Acho fabulosa a conceção de que se o mundo não bastar para nos alimentar teremos de começar a comer homens. E acho que isto prende-se intimamente com a parte de a bondade ter de ser humana, ou não ser bondade. 

Tuesday, 8 January 2013

Bieber e a substância ilícita

Esta notícia tem tanta graça. Parece redigida por um Américo Tomás privado do sono por uma noite a assistir a episódios da Heidi - "as imagens publicadas na passada sexta-feira mostram Bieber sentado num sofá a conversar e com um cigarro enrolado, que aparentemente contém substâncias ilícitas"; "nas redes sociais, alguns fãs ficaram chocados: “Bieber o que estás a fazer? Drogas, a sério?”" - , e versa sobre o modo como um artista da pós-pós-modernidade, que não compõe, não canta e não entretém, pode desiludir quem também achava que ele não existia.

Thursday, 3 January 2013

Dickens mas pouco

O poder é baseado na opinião. O poder atual é baseado numa opinião tão insuportável como ele próprio. Levámos no Natal com uma pastilhada ideológica absolutamente indefensável, que teve o seu zénite num anúncio a uma cadeia de supermercados onde um tal personagem com nome Gaspar surge como um chato poupador, contrariado por uma dona de casa moderadamente gira e moderadamente sensata que lhe mostra que é possível gastar pouco e, ainda assim, fazer a festa. A ideia de que o ministro das finanças é um sovina desmancha-prazeres é uma das duas únicas vitórias deste governo - coisa para ser replicada, vezes sem conta, por SMS, mail e conversa de circunstância à mesa da consoada, por quem acha que o está efetivamente a criticar (a outra vitória, aliás da mesma natureza, foi a de conseguir pessoalizar e isolar num único membro do governo o monopólio da bandidagem, como um caixote de lixo hermeticamente fechado para onde se atiraram as compressas com que se cuidou que o resto do governo se manteria perfeitamente assético). Repare-se em toda a iconografia do anúncio: o sr. Gaspar passa o Natal com uma família pequeno-burguesa, com mesa posta em toalha de plástico, que faz os planos de Natal na cozinha e que conta as gotas de espumante. É inexplicável que o sr. Gaspar apareça como o patriarca desta aldeia da roupa branca. É inexplicável que dr. Gaspar não apareça, em vez, de empregado de mesa num Natal de banqueiros, havendo um momento em que, no auge de uma bebedeira ideológica, surpreende os convivas atirando um molho de notas, dizendo, bonacheirão: epá, aqui têm o dinheirinho todo que precisam, e agora gastem-no como bem entenderem, que há mais de onde este veio (parece que os privados, que deterão residualmente o BANIF, onde o estado irá injetar mais de mil milhões de euros, irão manter integralmente o poder de decisão).

Monday, 24 December 2012

Bom Natal


Encontrei este vídeo no 31 da armada. Estou certo que foi inadvertido, mas os paralelos com o tempo atual são altamente aproveitáveis. Partilho os desejos de bom natal formulados em 1973 pelos soldados da guerra mais anacrónica do século XX. E, bom, que os meus desejos de bom ano novo resultem tão bem como os destes soldados. 

O fim do Washington Consensus foi televisionado

Pietro Liberi, o tempo derrotado pela Verdade, algures no século dezassete

Parece que um sujeito enganou o Expresso e a SIC Notícias, fazendo-se passar por alto funcionário da ONU e expressando opiniões fortemente idiossincráticas que se colocavam, aliás, ao mais radical arrepio da opinião e da prática de pelo menos duas das agências especializadas nas Nações Unidas, o Banco Mundial e o FMI. E tudo isto a acontecer, com grande sorte, nos media portugueses. Só mesmo jornalistas - só mesmo jornalistas portugueses - é que podiam encarar com tanta normalidade que um alto funcionário de uma organização pública pudesse mandar bitaites na televisão, a título pessoal. Por incompetência, desconhecem por completo o modo de funcionamento de uma organização como a ONU e, por vocação, acham normal que um funcionário de uma organização pública sirva de fonte e fale a título pessoal. 

A capacidade de discernir a ficção da realidade não é o forte dos portugueses. Um dos episódios mais enternecedores desta incapacidade deu-se quando a RTP teve de explicar publicamente que o programa Último a Sair era um reality show a brincar, apesar de o apresentador Miguel Guilherme ser frequentemente chamado Teresa e o Marco, do Big Brother, ser novamente expulso, no primeiro programa, por dar um pontapé num concorrente. O humor absurdo, nonsense, não é muito popular em Portugal por uma concorrência absolutamente desleal da realidade.

Sunday, 16 December 2012

Londres

Na Saatchi Gallery está uma extraordinária exposição com o título "gaiety is the most outstanding feature of the soviet union". Gaiety - uma espécie de felicidade evidente mas elegante - é uma das palavras de que mais gosto. Nas discussões de Estética do século XIX discutia-se a diferença insanável entre o Belo - uma experiência desinteressada por algo que é eterno, constante, limitado (às fronteiras da tela de um quadro, ou das formas de uma escultura, etc) - e o Sublime - uma experiência assustadora, que se devora a si mesma, perante algo cujos limites se desconhecem (um desfiladeiro, o mar, o céu, talvez). Na minha definição, gaiety é um belo que também é sublime. Uma felicidade exuberante, sublime mas limitada por uma toda-poderosa elegância. Com o tempo, tenho chegado à provisória conclusão que gaiety - cuja definição que uso é muito provavelmente pouco exacta - é provavelmente uma mentira. A elegância não consegue limitar algo ilimitado, mas apenas distrair para o facto de não ter limites. E quanto maior a elegância, melhor o esconde. Ora algo cujos limites se desconhecem não parece gerar realmente beleza nem felicidade, mas apenas uma vontade, sempre frustrada, de a encontrar e limitar. A felicidade tem de se conseguir levar para casa no fim do dia (ou, como Dalí dizia, a beleza tem de ser comestível). Cortar e levar para casa um pedaço de algo que não tem limites, esperando que preserve todas as suas caraterísticas, é, talvez, uma ilusão tonta - podemos levar água do mar para casa, mas a água não é o mar.

A frase que dá título à exposição faz parte da tradução de um discurso que Estaline fez nos anos 30. Repare-se que a tradução não foi "happiness", ou "merriment", ou "joyfulness", muito menos "hubris", mas sim "gaiety". E, para mim, faz todo o sentido. A felicidade de uma revolução de que se desconheciam os limites - e eram tão feios esses limites - não podia ser alegre, limitada, encontrável, mas uma espécie de promessa íntima, uma espécie de água engarrafada que se garantia ser o mar. Esta felicidade - que é simultaneamente uma coisa do presente, exuberante e visível, mas que verdadeiramente só se alcança no futuro (se quisermos, é a felicidade emprestada por um futuro que não se sabe se terá como a pagar de volta) - é título de exposição de jovens artistas russos, que vivem maioritariamente em Londres, sobre o passado do seu país - ou na verdade, sobre o futuro imaginário de um presente imaginado por Estaline. Uma felicidade que simultaneamente não se alcança mas que já foi alcançada é brilhantemente capturada pela jovem Vikenti Nilin, que fotografou vários russos sentados serenamente no limite de varandas de arranha-céus. Russos que, no presente, ou, mais precisamente, no limite de um passado que nunca foi realmente um futuro à altura do discurso de Estaline, se sentam confortavelmente, sem ilusões, e contemplam, com uma mestria arrepiante, as coisas sem limites.

A minha fotografia preferida é esta: 


Wednesday, 5 December 2012

22

Um soneto para o dia de hoje. Onde o poeta diz que o espelho não o pode convencer que é velho, na medida em que o seu amor permaneça jovem. E pergunta-se: como é que eu posso ser mais velho do que tu (how can I be elder than thou art) se o teu coração está no meu peito (thine - heart - in mine breast) - se o que mantém o outro vivo é parte de mim, como é que posso morrer antes de ti? A lógica do amor não é uma lógica muito humana. É por isso que o amor não é verdadeiro, mas é real.

My glass shall not persuade me I am old,
So long as youth and thou are of one date;
But when in thee time's furrows I behold,
Then look I death my days should expiate.
For all that beauty that doth cover thee,
Is but the seemly raiment of my heart,
Which in thy breast doth live, as thine in me:
How can I then be elder than thou art?
O! therefore love, be of thyself so wary
As I, not for myself, but for thee will;
Bearing thy heart, which I will keep so chary
As tender nurse her babe from faring ill.
Presume not on thy heart when mine is slain,
Thou gav'st me thine not to give back again

Soneto 22 de Shakespeare

Monday, 3 December 2012

A morte não é um sintoma

A certa altura, num episódio já da última temporada do House, a assistente Adams acha bem alertar o chefe que o paciente, ao qual este estava a dedicar dias inteiros, estava, digamos, morto. A resposta foi amplamente citável:

"House: Death is a consequence, not a symptom. If it's not a symptom, it's not relevant."

A maioria das boas notícias sobre variáveis macro neste país, mesmo quando não dizem diretamente respeito à economia, não são sintomas. Não são sintomas porque a morte não é um sintoma. E se não são sintomas, não são verdadeiramente notícias - a menos que sejam devidamente acompanhadas por uma nota que diga, tipo, que poluimos e importamos menos porque existimos menos. Os jornalistas estão a escrever certidões de óbito sem tirar conclusões precipitadas.

Sunday, 2 December 2012

Londres

Há vários tipos de regressos que nos levam a sítios novos, mas devemos garantir que haja pelo menos um que nos leve ao mesmo sítio. É que demora muito tempo até percebermos que, por mais que andemos, acabamos por chegar aos mesmos sítios. Quando percebemos isso, já é tão tarde que provavelmente nunca temos tempo para lá chegar. 

Não sei se Londres é o meu sítio, acho que não, mas passei lá muitos anos e aquilo sempre me pareceu uma cidade para se voltar. É uma cidade porreira para se voltar. Também é uma cidade porreira para se viver, mas é, acima de tudo, uma cidade porreira para se voltar. 

É coisa para cinco dias. Gostava de conseguir fazer posts sobre alguns dos sítios onde quero ir. 

Monday, 26 November 2012

Ortodoxia

Para Chesterton, o descobridor não sai de Inglaterra e chega ao Polo Sul, mas sai sim de Inglaterra e, por acidente, volta ao seu país convencido que acabou de descobrir uma nova ilha nos mares do sul. A ideia não é bem a do eterno retorno, que pressupõe que a Inglaterra onde o descobridor chega, por engano, ainda é a Inglaterra que ele deixou. É um eterno retorno onde se chega a algum lado.

Não sei se o Sam Mendes leu o Ortodoxia, mas a ideia está no 007 skyfall. Em vez de destacado para as trincheiras distantes que defendem a civilização da barbárie, em vez de afastar a fronteira com o Outro para os mares do sul, o agente secreto traz essa mesma fronteira para o coração de Londres. A barbárie está no próprio coração dos serviços secretos. E esta é uma inovação que me parece fazer todo o sentido, vindo talvez com uns 23 anos de atraso. Gostei.

Wednesday, 21 November 2012

Os pobres enquanto menos ricos

Contava-se muito esta anedota quando eu era pequeno: na escola os meninos têm de escrever uma composição sobre a pobreza, e o menino rico escreve que na casa do menino pobre todos eram pobres - o cozinheiro era pobre, o jardineiro era pobre, o motorista era pobre. Esta visão anedótica - no duplo sentido que a palavra em inglês tem - tem-se revelado surpreendentemente arquetipal nas declarações recentes que a nossa elite - elite, vá, "elite" - tem feito sobre a pobreza (é assim, a crise é como a professora que obriga os meninos ricos a escrever sobre a pobreza). 

Recentemente parece que a CM de Lisboa decidiu que os carros anteriores ao ano de 2000 não podem circular numa zona restrita de Lisboa. Nuno Gouveia, no 31 da armada, escreve, em resposta, que "António Costa não gosta de pobres". Na cabeça desta gente, um pobre é, basicamente, um tipo que tem tudo o que o rico tem, mas tudo o que tem é um bocadinho pior (isto lembra-me Protágoras, mas também o Underground, do Kusturica, onde o rapazito, que passou a vida toda numa caverna, vê uma raia e atira-se à água porque pensa que a é a mulher que se afogou, já que tudo o que conhecia com aquela forma era o véu da mulher com quem tinha casado dias antes): faz férias no estrangeiro, mas não chega às Maldivas, fica em Ibiza; vai à revista, não vai ao S. Carlos; come bifes de frango, não come carne de vaca; tem um cozinheiro, mas o cozinheiro é pobre também. E tem um carro, mas o carro é pior. Na cabeça desta gente, há uma linha integralmente contínua que separa o rico do pobre, uma régua onde a distância entre toda a gente pode ser medida numa unidade monetária homogeneizante (ou seja, não há classes, há indivíduos). É sobre esta régua continua  que a senhora Jonet queria fazer alinhar os pobres: fazê-los transitar da extremidade mais rica para uma mais consistente com a sua riqueza (é tudo um processo de re-ajustamento horizontal: ninguém cai, é só andar um bocadinho para o lado). É também esta a régua, aliás, subjacente aos modelos económicos que estão por detrás dos "processos de reajustamento" baseados na deflação doméstica que os austeritários impõem sobre o país. E é este, também, por fim, o raciocínio do sr. Nuno Gouveia. Como é óbvio, a pobreza é disruptiva, não é contínua. A fome, a vulnerabilidade, a humilhação, a privação, são condições que determinam o rumo da própria vida, não se limitam a torná-la mais difícil ou menos agradável. Um pobre não tem carro, muitas vezes não tem casa, não faz escolhas, e não é afetado pelas políticas do sr. António Costa.

Sunday, 11 November 2012

Welcome to the desert of the real


Depois de a direita ter levado uma abada nas ideias, sequencialmente, de que vivíamos acima das nossas possibilidades, de que o FMI vinha pôr as coisas na ordem e de que a austeridade ia funcionar, seria de esperar que se calassem por um bocado. Mas não. Não só falam, como fazem um vídeo absolutamente medíocre, caricatural, saloio, onde desfilam em trajes menores as ideias que há tão pouco tempo desprezavam. O vídeo fala por si mesmo, não é preciso notar grande coisa, mas acho particular piada ao facto de o mesmo ter como pano de fundo, sempre presente, um monumento salazarista (e terminar no muro de Berlim). 

Wednesday, 7 November 2012

O regresso aos mercados


Encontrei esta imagem no facebook, e lamento não ser capaz de dar os devidos créditos e congratulações a quem a tenha concebido. Penso que é a melhor representação do objetivo último da estratégia económica do governo português, conhecida como deflação doméstica (ou, em realês, empobrecimento generalizado da maioria) em torno do objetivo patriótico do regresso aos mercados. É este, efetivamente, o regresso aos mercados.