Tuesday, 8 January 2013

Bieber e a substância ilícita

Esta notícia tem tanta graça. Parece redigida por um Américo Tomás privado do sono por uma noite a assistir a episódios da Heidi - "as imagens publicadas na passada sexta-feira mostram Bieber sentado num sofá a conversar e com um cigarro enrolado, que aparentemente contém substâncias ilícitas"; "nas redes sociais, alguns fãs ficaram chocados: “Bieber o que estás a fazer? Drogas, a sério?”" - , e versa sobre o modo como um artista da pós-pós-modernidade, que não compõe, não canta e não entretém, pode desiludir quem também achava que ele não existia.

Thursday, 3 January 2013

Dickens mas pouco

O poder é baseado na opinião. O poder atual é baseado numa opinião tão insuportável como ele próprio. Levámos no Natal com uma pastilhada ideológica absolutamente indefensável, que teve o seu zénite num anúncio a uma cadeia de supermercados onde um tal personagem com nome Gaspar surge como um chato poupador, contrariado por uma dona de casa moderadamente gira e moderadamente sensata que lhe mostra que é possível gastar pouco e, ainda assim, fazer a festa. A ideia de que o ministro das finanças é um sovina desmancha-prazeres é uma das duas únicas vitórias deste governo - coisa para ser replicada, vezes sem conta, por SMS, mail e conversa de circunstância à mesa da consoada, por quem acha que o está efetivamente a criticar (a outra vitória, aliás da mesma natureza, foi a de conseguir pessoalizar e isolar num único membro do governo o monopólio da bandidagem, como um caixote de lixo hermeticamente fechado para onde se atiraram as compressas com que se cuidou que o resto do governo se manteria perfeitamente assético). Repare-se em toda a iconografia do anúncio: o sr. Gaspar passa o Natal com uma família pequeno-burguesa, com mesa posta em toalha de plástico, que faz os planos de Natal na cozinha e que conta as gotas de espumante. É inexplicável que o sr. Gaspar apareça como o patriarca desta aldeia da roupa branca. É inexplicável que dr. Gaspar não apareça, em vez, de empregado de mesa num Natal de banqueiros, havendo um momento em que, no auge de uma bebedeira ideológica, surpreende os convivas atirando um molho de notas, dizendo, bonacheirão: epá, aqui têm o dinheirinho todo que precisam, e agora gastem-no como bem entenderem, que há mais de onde este veio (parece que os privados, que deterão residualmente o BANIF, onde o estado irá injetar mais de mil milhões de euros, irão manter integralmente o poder de decisão).

Monday, 24 December 2012

Bom Natal


Encontrei este vídeo no 31 da armada. Estou certo que foi inadvertido, mas os paralelos com o tempo atual são altamente aproveitáveis. Partilho os desejos de bom natal formulados em 1973 pelos soldados da guerra mais anacrónica do século XX. E, bom, que os meus desejos de bom ano novo resultem tão bem como os destes soldados. 

O fim do Washington Consensus foi televisionado

Pietro Liberi, o tempo derrotado pela Verdade, algures no século dezassete

Parece que um sujeito enganou o Expresso e a SIC Notícias, fazendo-se passar por alto funcionário da ONU e expressando opiniões fortemente idiossincráticas que se colocavam, aliás, ao mais radical arrepio da opinião e da prática de pelo menos duas das agências especializadas nas Nações Unidas, o Banco Mundial e o FMI. E tudo isto a acontecer, com grande sorte, nos media portugueses. Só mesmo jornalistas - só mesmo jornalistas portugueses - é que podiam encarar com tanta normalidade que um alto funcionário de uma organização pública pudesse mandar bitaites na televisão, a título pessoal. Por incompetência, desconhecem por completo o modo de funcionamento de uma organização como a ONU e, por vocação, acham normal que um funcionário de uma organização pública sirva de fonte e fale a título pessoal. 

A capacidade de discernir a ficção da realidade não é o forte dos portugueses. Um dos episódios mais enternecedores desta incapacidade deu-se quando a RTP teve de explicar publicamente que o programa Último a Sair era um reality show a brincar, apesar de o apresentador Miguel Guilherme ser frequentemente chamado Teresa e o Marco, do Big Brother, ser novamente expulso, no primeiro programa, por dar um pontapé num concorrente. O humor absurdo, nonsense, não é muito popular em Portugal por uma concorrência absolutamente desleal da realidade.

Sunday, 16 December 2012

Londres

Na Saatchi Gallery está uma extraordinária exposição com o título "gaiety is the most outstanding feature of the soviet union". Gaiety - uma espécie de felicidade evidente mas elegante - é uma das palavras de que mais gosto. Nas discussões de Estética do século XIX discutia-se a diferença insanável entre o Belo - uma experiência desinteressada por algo que é eterno, constante, limitado (às fronteiras da tela de um quadro, ou das formas de uma escultura, etc) - e o Sublime - uma experiência assustadora, que se devora a si mesma, perante algo cujos limites se desconhecem (um desfiladeiro, o mar, o céu, talvez). Na minha definição, gaiety é um belo que também é sublime. Uma felicidade exuberante, sublime mas limitada por uma toda-poderosa elegância. Com o tempo, tenho chegado à provisória conclusão que gaiety - cuja definição que uso é muito provavelmente pouco exacta - é provavelmente uma mentira. A elegância não consegue limitar algo ilimitado, mas apenas distrair para o facto de não ter limites. E quanto maior a elegância, melhor o esconde. Ora algo cujos limites se desconhecem não parece gerar realmente beleza nem felicidade, mas apenas uma vontade, sempre frustrada, de a encontrar e limitar. A felicidade tem de se conseguir levar para casa no fim do dia (ou, como Dalí dizia, a beleza tem de ser comestível). Cortar e levar para casa um pedaço de algo que não tem limites, esperando que preserve todas as suas caraterísticas, é, talvez, uma ilusão tonta - podemos levar água do mar para casa, mas a água não é o mar.

A frase que dá título à exposição faz parte da tradução de um discurso que Estaline fez nos anos 30. Repare-se que a tradução não foi "happiness", ou "merriment", ou "joyfulness", muito menos "hubris", mas sim "gaiety". E, para mim, faz todo o sentido. A felicidade de uma revolução de que se desconheciam os limites - e eram tão feios esses limites - não podia ser alegre, limitada, encontrável, mas uma espécie de promessa íntima, uma espécie de água engarrafada que se garantia ser o mar. Esta felicidade - que é simultaneamente uma coisa do presente, exuberante e visível, mas que verdadeiramente só se alcança no futuro (se quisermos, é a felicidade emprestada por um futuro que não se sabe se terá como a pagar de volta) - é título de exposição de jovens artistas russos, que vivem maioritariamente em Londres, sobre o passado do seu país - ou na verdade, sobre o futuro imaginário de um presente imaginado por Estaline. Uma felicidade que simultaneamente não se alcança mas que já foi alcançada é brilhantemente capturada pela jovem Vikenti Nilin, que fotografou vários russos sentados serenamente no limite de varandas de arranha-céus. Russos que, no presente, ou, mais precisamente, no limite de um passado que nunca foi realmente um futuro à altura do discurso de Estaline, se sentam confortavelmente, sem ilusões, e contemplam, com uma mestria arrepiante, as coisas sem limites.

A minha fotografia preferida é esta: 


Wednesday, 5 December 2012

22

Um soneto para o dia de hoje. Onde o poeta diz que o espelho não o pode convencer que é velho, na medida em que o seu amor permaneça jovem. E pergunta-se: como é que eu posso ser mais velho do que tu (how can I be elder than thou art) se o teu coração está no meu peito (thine - heart - in mine breast) - se o que mantém o outro vivo é parte de mim, como é que posso morrer antes de ti? A lógica do amor não é uma lógica muito humana. É por isso que o amor não é verdadeiro, mas é real.

My glass shall not persuade me I am old,
So long as youth and thou are of one date;
But when in thee time's furrows I behold,
Then look I death my days should expiate.
For all that beauty that doth cover thee,
Is but the seemly raiment of my heart,
Which in thy breast doth live, as thine in me:
How can I then be elder than thou art?
O! therefore love, be of thyself so wary
As I, not for myself, but for thee will;
Bearing thy heart, which I will keep so chary
As tender nurse her babe from faring ill.
Presume not on thy heart when mine is slain,
Thou gav'st me thine not to give back again

Soneto 22 de Shakespeare

Monday, 3 December 2012

A morte não é um sintoma

A certa altura, num episódio já da última temporada do House, a assistente Adams acha bem alertar o chefe que o paciente, ao qual este estava a dedicar dias inteiros, estava, digamos, morto. A resposta foi amplamente citável:

"House: Death is a consequence, not a symptom. If it's not a symptom, it's not relevant."

A maioria das boas notícias sobre variáveis macro neste país, mesmo quando não dizem diretamente respeito à economia, não são sintomas. Não são sintomas porque a morte não é um sintoma. E se não são sintomas, não são verdadeiramente notícias - a menos que sejam devidamente acompanhadas por uma nota que diga, tipo, que poluimos e importamos menos porque existimos menos. Os jornalistas estão a escrever certidões de óbito sem tirar conclusões precipitadas.

Sunday, 2 December 2012

Londres

Há vários tipos de regressos que nos levam a sítios novos, mas devemos garantir que haja pelo menos um que nos leve ao mesmo sítio. É que demora muito tempo até percebermos que, por mais que andemos, acabamos por chegar aos mesmos sítios. Quando percebemos isso, já é tão tarde que provavelmente nunca temos tempo para lá chegar. 

Não sei se Londres é o meu sítio, acho que não, mas passei lá muitos anos e aquilo sempre me pareceu uma cidade para se voltar. É uma cidade porreira para se voltar. Também é uma cidade porreira para se viver, mas é, acima de tudo, uma cidade porreira para se voltar. 

É coisa para cinco dias. Gostava de conseguir fazer posts sobre alguns dos sítios onde quero ir. 

Monday, 26 November 2012

Ortodoxia

Para Chesterton, o descobridor não sai de Inglaterra e chega ao Polo Sul, mas sai sim de Inglaterra e, por acidente, volta ao seu país convencido que acabou de descobrir uma nova ilha nos mares do sul. A ideia não é bem a do eterno retorno, que pressupõe que a Inglaterra onde o descobridor chega, por engano, ainda é a Inglaterra que ele deixou. É um eterno retorno onde se chega a algum lado.

Não sei se o Sam Mendes leu o Ortodoxia, mas a ideia está no 007 skyfall. Em vez de destacado para as trincheiras distantes que defendem a civilização da barbárie, em vez de afastar a fronteira com o Outro para os mares do sul, o agente secreto traz essa mesma fronteira para o coração de Londres. A barbárie está no próprio coração dos serviços secretos. E esta é uma inovação que me parece fazer todo o sentido, vindo talvez com uns 23 anos de atraso. Gostei.

Wednesday, 21 November 2012

Os pobres enquanto menos ricos

Contava-se muito esta anedota quando eu era pequeno: na escola os meninos têm de escrever uma composição sobre a pobreza, e o menino rico escreve que na casa do menino pobre todos eram pobres - o cozinheiro era pobre, o jardineiro era pobre, o motorista era pobre. Esta visão anedótica - no duplo sentido que a palavra em inglês tem - tem-se revelado surpreendentemente arquetipal nas declarações recentes que a nossa elite - elite, vá, "elite" - tem feito sobre a pobreza (é assim, a crise é como a professora que obriga os meninos ricos a escrever sobre a pobreza). 

Recentemente parece que a CM de Lisboa decidiu que os carros anteriores ao ano de 2000 não podem circular numa zona restrita de Lisboa. Nuno Gouveia, no 31 da armada, escreve, em resposta, que "António Costa não gosta de pobres". Na cabeça desta gente, um pobre é, basicamente, um tipo que tem tudo o que o rico tem, mas tudo o que tem é um bocadinho pior (isto lembra-me Protágoras, mas também o Underground, do Kusturica, onde o rapazito, que passou a vida toda numa caverna, vê uma raia e atira-se à água porque pensa que a é a mulher que se afogou, já que tudo o que conhecia com aquela forma era o véu da mulher com quem tinha casado dias antes): faz férias no estrangeiro, mas não chega às Maldivas, fica em Ibiza; vai à revista, não vai ao S. Carlos; come bifes de frango, não come carne de vaca; tem um cozinheiro, mas o cozinheiro é pobre também. E tem um carro, mas o carro é pior. Na cabeça desta gente, há uma linha integralmente contínua que separa o rico do pobre, uma régua onde a distância entre toda a gente pode ser medida numa unidade monetária homogeneizante (ou seja, não há classes, há indivíduos). É sobre esta régua continua  que a senhora Jonet queria fazer alinhar os pobres: fazê-los transitar da extremidade mais rica para uma mais consistente com a sua riqueza (é tudo um processo de re-ajustamento horizontal: ninguém cai, é só andar um bocadinho para o lado). É também esta a régua, aliás, subjacente aos modelos económicos que estão por detrás dos "processos de reajustamento" baseados na deflação doméstica que os austeritários impõem sobre o país. E é este, também, por fim, o raciocínio do sr. Nuno Gouveia. Como é óbvio, a pobreza é disruptiva, não é contínua. A fome, a vulnerabilidade, a humilhação, a privação, são condições que determinam o rumo da própria vida, não se limitam a torná-la mais difícil ou menos agradável. Um pobre não tem carro, muitas vezes não tem casa, não faz escolhas, e não é afetado pelas políticas do sr. António Costa.

Sunday, 11 November 2012

Welcome to the desert of the real


Depois de a direita ter levado uma abada nas ideias, sequencialmente, de que vivíamos acima das nossas possibilidades, de que o FMI vinha pôr as coisas na ordem e de que a austeridade ia funcionar, seria de esperar que se calassem por um bocado. Mas não. Não só falam, como fazem um vídeo absolutamente medíocre, caricatural, saloio, onde desfilam em trajes menores as ideias que há tão pouco tempo desprezavam. O vídeo fala por si mesmo, não é preciso notar grande coisa, mas acho particular piada ao facto de o mesmo ter como pano de fundo, sempre presente, um monumento salazarista (e terminar no muro de Berlim). 

Wednesday, 7 November 2012

O regresso aos mercados


Encontrei esta imagem no facebook, e lamento não ser capaz de dar os devidos créditos e congratulações a quem a tenha concebido. Penso que é a melhor representação do objetivo último da estratégia económica do governo português, conhecida como deflação doméstica (ou, em realês, empobrecimento generalizado da maioria) em torno do objetivo patriótico do regresso aos mercados. É este, efetivamente, o regresso aos mercados.