Wednesday, 3 October 2012

Roma e o amor

Tenho uma relação própria com o woody allen, que consiste em consumi-lo compulsivamente sem precisar de parar para coisas menores como o enredo. Os filmes são maratonas de metáforas a correr atrás dos corpos dos atores. Neste filme em particular adorei o modo como aquele ator famoso italiano representa (se faz passar por) um mero mortal que, sem motivos aparentes, se torna famoso de um dia para o outro - o ator que é famoso por representar (por se fazer passar por alguém) representa alguém que se torna famoso por ser ele próprio, na sua imensa banalidade. É a delícia que Shakespeare devia sentir quando metia um homem a representar uma mulher que se fazia passar por um homem, ou a delícia de uma cidade onde hoje as ruínas são mais populares do que eram os edifícios imperiais e eficientes de uma cidade que era e é eterna - e cíclica. A fama, e o amor, acontecem ambos nas suas próprias ruínas - na visibilidade aparente das estruturas que ficam depois de não terem aguentado o peso de tudo o resto (que desaparece para sempre do tempo). É preciso recordar que a única miúda gira no filme é a prostituta, a mulher que representa quem quer que seja e que dá amor às famílias ricas. A mulher que não aparecerá nas fotografias dos casais que se aguentaram porque ela lá esteve, incógnita, no meio, a satisfazer o patriarca. Tudo o resto é Roma e os seus turistas, ou woody allen e a sua audiência, em busca de um sentido para as suas ruínas. 

Monday, 17 September 2012

Vénus e Marte

Reuters

(O Kundera é que dizia que as manifestações eram o exponente do Kitsch. A de ontem, ao contrário, foi Boticelli).

Tuesday, 11 September 2012

Os amigos do Gaspar

O ministro da técnica disse hoje que o sacrifício seria distribuído de modo igual por toda a sociedade e eu lembrei-me da anedota da galinha que sugere ao porco prepararem um pequeno almoço para o amo.

- É fácil. Eu dou os ovos e tu dás o bacon.

Monday, 10 September 2012

Fábulas


Esta afirmação tem subjacente uma crença fundamental sobre o funcionamento dos mercados: as transferências de rendimento entre o trabalho e o capital são boas para a economia. É exatamente isso que é dito: as medidas são neutras do ponto de vista da receita fiscal como um todo. No entanto, as medidas terão um impacte positivo na economia, porque, precisamente, o dinheiro nas mãos dos empresários é mais útil do que nas mãos dos trabalhadores.

Com dinheiro nas mãos, os empresários investem e a economia progride. É este o pecado original dos liberais, e que revela o modo como entendem a origem da economia capitalista. Esta leitura da história ignora por completo considerações sobre o papel das instituições, do estado, da violência e do poder. Neste mundo idílico, a economia é geração espontânea dos empresários, e os trabalhadores têm a sorte de beneficiar dela. Reconhecer o papel do consumo privado na economia é contrário a esta ideia, precisamente porque inverte a lógica liberal, que coloca o primado no investimento, do qual o consumo é apenas um by-product.

A transferência entre o capital e o trabalho, proposta pelo Governo Português, não é neutra nem tem um impacte positivo. O problema económico do país não é, intriscamente, o de uma insuficiente poupança. Existem recursos disponíveis, como se tem sabido. Os bancos têm financiamento barato e o consumo de carros de luxo não tem diminuído, o que indicia que existem rendimento na classe mais alta. O problema, como dizia, não é o de falta de poupança, mas falta de investimento. Esta diferença entre a poupança e o investimento é que determina que o produto continue a cair, até que as duas variáveis se igualem. A questão central, portanto, é a da falta de vontade de investir e assumir riscos, e a falta de vontade dos bancos emprestarem dinheiro. E esta falta de vontade prende-se, essencialmente, com a expectável contração do consumo que sucederá, essencialmente também, por causa das medidas do Governo.

Como M. Kalecki demonstrou, retirar rendimento da classe mais baixa (que consome mais) e entregá-la à classe mais alta (que poupa mais) tem efeitos negativos em momentos de recessão (ou seja, em momentos onde não se quer investir).

Ideologicamente, no entanto, é essencial manter a fábula de que o dinheiro nas mãos dos ricos multiplica-se generosamente e transborda para as mãos saciosas dos pobres.

Saturday, 8 September 2012

Medidas de austeridade de hoje

Na prática, na substância - essa massa pegajosa - o que as medidas de hoje querem dizer é isto: continuam a tirar dois subsídios ao serviço público, e, no privado, aplica-se um imposto aos trabalhadores e entrega-se, oferece-se incondicionalmente, a respetiva receita fiscal - dinheiro dos contribuintes, a única forma assumida pelos humanos que agrada aos liberais - às empresas. Pequenas, grandes, lucrativas, não lucrativas, que mandam os rendimentos para fora, que deixam os rendimentos cá dentro. É uma transferência do capital para o trabalho à mão armada. 

Se a luta de classes morreu é porque já só resta um dos lados. 

Tuesday, 19 June 2012

A política do vale

Passei na rua Braancamp por esta loja, que desconhecia. Parece que compram e vendem todo o tipo de objetos em segunda mão. Dizem, no anúncio colocado na montra, que o casamento é com o santo António, mas o divórcio é com eles. Não têm nada que ver com os momentos de alegria; mas estão lá para a desgraça. Não constroem nada, mas apanham os cacos - e lucram com eles. O Robert Frost dizia que os bancos te emprestam um chapéu de chuva quando está sol e to pedem de volta quando começa a chover. Estes tipos não te chegam sequer a emprestar um chapéu de chuva quando está sol: isso é lá com o santo António. Mas estarão à tua espera para te ficar com o chapéu de chuva quando estiver a chover. Não entendes, homem, que isto é um negócio como qualquer outro e que - segundo argumento, o argumento do vale (já explico) - se eles não existissem, isto era coisa para acabar bem pior? Pensemos bem nisto: se não existirem estes cashconverters, os tipos que percam o emprego e precisem de dinheiro desesperadamente não terão como fazê-lo. É objetivamente pior, não é? 

Na discussão sobre a dinâmica das guerras civis, um académico que muito admiro - o David Keen - demonstrou como, em alguns casos específicos, os mercados funcionaram particularmente bem durante os períodos de conflito e fome na África Subsariana. A segurança em torno dos mercados era, num aparente paradoxo, muito mais garantida em períodos de conflito e miséria do que em períodos de paz - e a quantidade de transações (a que os economistas chamam a "profundidade do mercado") era, também, muito superior. As pessoas vendiam todos os ativos que tinham - gado, terra, trabalho - a troco de pouco, para que pudessem comprar comida. Isto é bom, não é? Se não houvesse mercados, o que é que eles comiam? 

E é isto que chamo o argumento do vale: estamos rodeados por montanhas, e se ficares aqui sossegado no vale, objetivamente vais ficar melhor. E é verdade. Não te cansas. A política do vale é excelente a dizer-nos o que seria que acontecia se não existisse coisa x: se não houvessem cashconverters, os pobres não teriam possibilidade de ganhar dinheiro vendendo as suas coisas. A política do vale é excelente a dizer-nos o que seria, mas é péssima a dizer o que devia ser. A discussão sobre o que devia ser, no entanto, chama-se ética, e os humanos durante séculos costumavam querer entrar nela. O que é correto? O que é justo? O que é que está para além destas montanhas? Porque é que os mercados em período de conflito são tão seguros e tão "profundos"?  Porque é que há conflitos, em primeiro lugar, e porque é que permitem a um punhado de gente enriquecer? Porque é que a Alemanha conhece períodos tão profundos de prosperidade, no meio do caos financeiro da periferia? É correto que haja gente que beneficia da desgraça alheia? A política do vale é, em boa parte, a legitimação necessária para o fim das discussões éticas. A melhor forma de manipulação: aquela que, depois de te colocar num vale, te pergunta se não ficarás pior se andares para aí a tentar subir montanhas.

Thursday, 12 April 2012

A linguagem e o amor



Os monumentos da civilização são também os monumentos da barbárie. Lembrei-me de Benjamin quando encontrei esta porta pequena e despojada que dá acesso à cave do palácio de sintra. Os monumentos da civilização são também os monumentos da barbárie, e a porta pequena da criadagem, simultaneamente necessária e excedente, foi construída por outros trabalhadores de base - os construtores do palácio construiram também os meios de inferiorização da sua própria classe. Não foi D. João I que fez o palácio e aquela porta expõe obscenamente a relação de poder que vive na linguagem típica de turistas.

Todos os monumentos da civilização são os monumentos da barbárie, e isso é verdade para toda a civilização, e para toda a barbárie. A grandiosidade tem, por assim dizer, uma porta pequena e despojada por onde quem os constrói pode entrar e esconder-se lá dentro. A obscenidade está em exibir a porta, não em passá-la. Passá-la é uma necessidade.

Friday, 9 March 2012

It's the economy, stupid?

Há muito que não escrevo aqui, mas que melhor assunto para voltar do que economia? Pois.

O problema da economia, diria chesterton, não é ser irrazoável, é ser quase razoável. Ou seja, muitas vezes não são as respostas em economia que estão erradas - essas quase sempre são excelentes, e às vezes até fazem sentido -, mas sim as perguntas. Toda a resposta é brilhante, a pergunta é que é estúpida.

Uma jornalista coloca como lead numa notícia do Público sobre crise alimentar a seguinte pergunta: como produzir mais e desperdiçar menos? As respostas são todas razoáveis e correctas (deixem os países pobres produzir porque é mais barato, retirem as barreiras ao comércio, liberalizem os preços, deixem-se de peneirices com os transgénicos). Mas a pergunta não é. As crises alimentares nunca se dão por falta de comida, mas por falta de acesso à comida. Dah. Sim, mas deu um nobel. Há quase quinze anos o Amartya Sen ganhou-o por demonstrar que as crises alimentares aparecem quando as pessoas deixam de conseguir comprá-la ou colhê-la, ou seja, quando os seus salários, activos e produção própria não são suficientes para obter uma quantidade de comida suficiente. Por exemplo, as crises alimentares no Bangladesh no início dos anos 70 foram precedidas por aumentos record da produção de arroz. Em simultâneo, deram-se cheias em alguns meses do verão que reduziram a criação de emprego, o que reduziu os salários médios a ponto de estes já não serem suficientes para comprar comida. Mais tarde, uma economista, que não ganhou o nobel, explicou porque é que as pessoas não conseguiam comprar comida (que é a parte mais interessante), mostrando que as crises alimentares são processos longos - demoram muitos anos e consistem precisamente na redução progressiva dos preços dos activos e dos salários reais e consequente vulnerabilização - e tem associados beneficiados/derrotados. Os activos que são vendidos à pressa para poder comer são comprados por alguém a preços excepcionalmente baixos; consegue-se trabalho barato; etc. Tudo parece razoável: se nem todos comem é porque não há comida para todos. Mas a questão não é "porque é que não há comida para todos?", mas "porque é que há comida para alguns?"

E eis outra resposta razoável com uma pergunta estúpida: Paulo Teixeira Pinto disse que nunca como agora o dinheiro teve tanto poder. O dinheiro comprava poder, mas não era o poder. A pergunta estúpida é: o dinheiro compra poder? O dinheiro não compra poder, o dinheiro é poder. Claro que o dinheiro pode comprar poder: mas só porque já é poder. Ou antes: é verdade que o dinheiro compra poder, porque o dinheiro tem a função de facilitar as compras, e uma das coisas que se podem comprar é o poder. Mas o dinheiro não permite apenas facilitar as compras: o dinheiro é uma reserva de valor, e essa reserva de valor permite acumular poder. O dinheiro é trocado por poder apenas porque é poder (ninguém troca algo por outra coisa que valha menos).

Monday, 12 December 2011

Barco negro

O barco negro é sobre a excentricidade do amor - ou o modo meio louco como o amor entre duas pessoas pode permanecer quando uma delas se vai embora. Utilizando a linguagem da psicanálise, o barco negro - o melhor fado já feito - é sobre a dissociação do amor, a simultaneidade insensata de predicado e sujeito: a contradição entre acção do homem (partir) e a sua condição (de amante); entre a leveza e o peso, como diria Kundera.



É sobre a peixeira que perde o pescador; ou seja, sobre a mulher que perde o amante mas não consegue perder o amor.

Saturday, 3 December 2011

Manoel

O Manoel de Oliveira afirmou que a literatura é muito superior ao cinema. Talvez não tenha afirmado, talvez tenha confessado ou, melhor ainda, talvez tenha sugerido. O verbo é indiferente, porque é conjugado em liberdade. Um homem que passou o tempo para a morte experiencia a verdadeira - a única - liberdade. Não é a treta da liberdade negativa, ou a liberdade liberal, essa possibilidade de liberdade que é menos livre que a vontade, mas a verdadeira liberdade - a liberdade de dizer palavras que a morte perceba, e não as palavras que os outros percebam.

Friday, 2 December 2011