Tuesday, 19 June 2012

A política do vale

Passei na rua Braancamp por esta loja, que desconhecia. Parece que compram e vendem todo o tipo de objetos em segunda mão. Dizem, no anúncio colocado na montra, que o casamento é com o santo António, mas o divórcio é com eles. Não têm nada que ver com os momentos de alegria; mas estão lá para a desgraça. Não constroem nada, mas apanham os cacos - e lucram com eles. O Robert Frost dizia que os bancos te emprestam um chapéu de chuva quando está sol e to pedem de volta quando começa a chover. Estes tipos não te chegam sequer a emprestar um chapéu de chuva quando está sol: isso é lá com o santo António. Mas estarão à tua espera para te ficar com o chapéu de chuva quando estiver a chover. Não entendes, homem, que isto é um negócio como qualquer outro e que - segundo argumento, o argumento do vale (já explico) - se eles não existissem, isto era coisa para acabar bem pior? Pensemos bem nisto: se não existirem estes cashconverters, os tipos que percam o emprego e precisem de dinheiro desesperadamente não terão como fazê-lo. É objetivamente pior, não é? 

Na discussão sobre a dinâmica das guerras civis, um académico que muito admiro - o David Keen - demonstrou como, em alguns casos específicos, os mercados funcionaram particularmente bem durante os períodos de conflito e fome na África Subsariana. A segurança em torno dos mercados era, num aparente paradoxo, muito mais garantida em períodos de conflito e miséria do que em períodos de paz - e a quantidade de transações (a que os economistas chamam a "profundidade do mercado") era, também, muito superior. As pessoas vendiam todos os ativos que tinham - gado, terra, trabalho - a troco de pouco, para que pudessem comprar comida. Isto é bom, não é? Se não houvesse mercados, o que é que eles comiam? 

E é isto que chamo o argumento do vale: estamos rodeados por montanhas, e se ficares aqui sossegado no vale, objetivamente vais ficar melhor. E é verdade. Não te cansas. A política do vale é excelente a dizer-nos o que seria que acontecia se não existisse coisa x: se não houvessem cashconverters, os pobres não teriam possibilidade de ganhar dinheiro vendendo as suas coisas. A política do vale é excelente a dizer-nos o que seria, mas é péssima a dizer o que devia ser. A discussão sobre o que devia ser, no entanto, chama-se ética, e os humanos durante séculos costumavam querer entrar nela. O que é correto? O que é justo? O que é que está para além destas montanhas? Porque é que os mercados em período de conflito são tão seguros e tão "profundos"?  Porque é que há conflitos, em primeiro lugar, e porque é que permitem a um punhado de gente enriquecer? Porque é que a Alemanha conhece períodos tão profundos de prosperidade, no meio do caos financeiro da periferia? É correto que haja gente que beneficia da desgraça alheia? A política do vale é, em boa parte, a legitimação necessária para o fim das discussões éticas. A melhor forma de manipulação: aquela que, depois de te colocar num vale, te pergunta se não ficarás pior se andares para aí a tentar subir montanhas.

Thursday, 12 April 2012

A linguagem e o amor



Os monumentos da civilização são também os monumentos da barbárie. Lembrei-me de Benjamin quando encontrei esta porta pequena e despojada que dá acesso à cave do palácio de sintra. Os monumentos da civilização são também os monumentos da barbárie, e a porta pequena da criadagem, simultaneamente necessária e excedente, foi construída por outros trabalhadores de base - os construtores do palácio construiram também os meios de inferiorização da sua própria classe. Não foi D. João I que fez o palácio e aquela porta expõe obscenamente a relação de poder que vive na linguagem típica de turistas.

Todos os monumentos da civilização são os monumentos da barbárie, e isso é verdade para toda a civilização, e para toda a barbárie. A grandiosidade tem, por assim dizer, uma porta pequena e despojada por onde quem os constrói pode entrar e esconder-se lá dentro. A obscenidade está em exibir a porta, não em passá-la. Passá-la é uma necessidade.

Friday, 9 March 2012

It's the economy, stupid?

Há muito que não escrevo aqui, mas que melhor assunto para voltar do que economia? Pois.

O problema da economia, diria chesterton, não é ser irrazoável, é ser quase razoável. Ou seja, muitas vezes não são as respostas em economia que estão erradas - essas quase sempre são excelentes, e às vezes até fazem sentido -, mas sim as perguntas. Toda a resposta é brilhante, a pergunta é que é estúpida.

Uma jornalista coloca como lead numa notícia do Público sobre crise alimentar a seguinte pergunta: como produzir mais e desperdiçar menos? As respostas são todas razoáveis e correctas (deixem os países pobres produzir porque é mais barato, retirem as barreiras ao comércio, liberalizem os preços, deixem-se de peneirices com os transgénicos). Mas a pergunta não é. As crises alimentares nunca se dão por falta de comida, mas por falta de acesso à comida. Dah. Sim, mas deu um nobel. Há quase quinze anos o Amartya Sen ganhou-o por demonstrar que as crises alimentares aparecem quando as pessoas deixam de conseguir comprá-la ou colhê-la, ou seja, quando os seus salários, activos e produção própria não são suficientes para obter uma quantidade de comida suficiente. Por exemplo, as crises alimentares no Bangladesh no início dos anos 70 foram precedidas por aumentos record da produção de arroz. Em simultâneo, deram-se cheias em alguns meses do verão que reduziram a criação de emprego, o que reduziu os salários médios a ponto de estes já não serem suficientes para comprar comida. Mais tarde, uma economista, que não ganhou o nobel, explicou porque é que as pessoas não conseguiam comprar comida (que é a parte mais interessante), mostrando que as crises alimentares são processos longos - demoram muitos anos e consistem precisamente na redução progressiva dos preços dos activos e dos salários reais e consequente vulnerabilização - e tem associados beneficiados/derrotados. Os activos que são vendidos à pressa para poder comer são comprados por alguém a preços excepcionalmente baixos; consegue-se trabalho barato; etc. Tudo parece razoável: se nem todos comem é porque não há comida para todos. Mas a questão não é "porque é que não há comida para todos?", mas "porque é que há comida para alguns?"

E eis outra resposta razoável com uma pergunta estúpida: Paulo Teixeira Pinto disse que nunca como agora o dinheiro teve tanto poder. O dinheiro comprava poder, mas não era o poder. A pergunta estúpida é: o dinheiro compra poder? O dinheiro não compra poder, o dinheiro é poder. Claro que o dinheiro pode comprar poder: mas só porque já é poder. Ou antes: é verdade que o dinheiro compra poder, porque o dinheiro tem a função de facilitar as compras, e uma das coisas que se podem comprar é o poder. Mas o dinheiro não permite apenas facilitar as compras: o dinheiro é uma reserva de valor, e essa reserva de valor permite acumular poder. O dinheiro é trocado por poder apenas porque é poder (ninguém troca algo por outra coisa que valha menos).

Monday, 12 December 2011

Barco negro

O barco negro é sobre a excentricidade do amor - ou o modo meio louco como o amor entre duas pessoas pode permanecer quando uma delas se vai embora. Utilizando a linguagem da psicanálise, o barco negro - o melhor fado já feito - é sobre a dissociação do amor, a simultaneidade insensata de predicado e sujeito: a contradição entre acção do homem (partir) e a sua condição (de amante); entre a leveza e o peso, como diria Kundera.



É sobre a peixeira que perde o pescador; ou seja, sobre a mulher que perde o amante mas não consegue perder o amor.

Saturday, 3 December 2011

Manoel

O Manoel de Oliveira afirmou que a literatura é muito superior ao cinema. Talvez não tenha afirmado, talvez tenha confessado ou, melhor ainda, talvez tenha sugerido. O verbo é indiferente, porque é conjugado em liberdade. Um homem que passou o tempo para a morte experiencia a verdadeira - a única - liberdade. Não é a treta da liberdade negativa, ou a liberdade liberal, essa possibilidade de liberdade que é menos livre que a vontade, mas a verdadeira liberdade - a liberdade de dizer palavras que a morte perceba, e não as palavras que os outros percebam.

Friday, 2 December 2011

Saturday, 26 November 2011

Reflexões de sol em inverno menor

Nós somos todos merda. A ética é evitar sujar os outros.

Wednesday, 2 November 2011

Got a devil' s haircut in my mind

A ler: este post do Nuno Teles sobre um corte de cabelo que afinal é só gel.

Sunday, 30 October 2011

Com atraso



And every time he kisses you it leaves behind the bitter taste of saccharine. Uma das acusações mais geniais da pop platónica.

Saturday, 29 October 2011

Thursday, 27 October 2011

Gaiety

All perform their tragic play,
There struts Hamlet, there is Lear,
That's Ophelia, that Cordelia;
Yet they, should the last scene be there,
The great stage curtain about to drop,
If worthy their prominent part in the play,
Do not break up their lines to weep.
They know that Hamlet and Lear are gay;

Gaiety transfiguring all that dread.
All men have aimed at, found and lost;

Black out; Heaven blazing into the head:
Tragedy wrought to its uttermost.
Though Hamlet rambles and Lear rages,
And all the drop-scenes drop at once
Upon a hundred thousand stages,
It cannot grow by an inch or an ounce.

Do Lapis Lazuli



ps este poema do yeats, onde em guerra cada homem e cada mulher acompanha heroicamente à sua própria tragédia, lembra e rejeita a ideia de que o mundo é um palco, de shakespeare; numa cidade bombardeada - numa cidade sem livre arbítrio - o mundo não é um palco, o palco é o mundo. e os personagens, com mais livre arbítrio do que os agentes, estão cheios de gaiety. e a gaiety é de uma beleza extraordinária.

Sunday, 23 October 2011

A verdade será o teu dote


Ford M. Brown, Cordelia's portion, coisa pré-rafaelita

O amor é coisa de velhos. Quero dizer que o amor impossível é coisa de velhos.