Sunday, 30 October 2011

Com atraso



And every time he kisses you it leaves behind the bitter taste of saccharine. Uma das acusações mais geniais da pop platónica.

Saturday, 29 October 2011

Thursday, 27 October 2011

Gaiety

All perform their tragic play,
There struts Hamlet, there is Lear,
That's Ophelia, that Cordelia;
Yet they, should the last scene be there,
The great stage curtain about to drop,
If worthy their prominent part in the play,
Do not break up their lines to weep.
They know that Hamlet and Lear are gay;

Gaiety transfiguring all that dread.
All men have aimed at, found and lost;

Black out; Heaven blazing into the head:
Tragedy wrought to its uttermost.
Though Hamlet rambles and Lear rages,
And all the drop-scenes drop at once
Upon a hundred thousand stages,
It cannot grow by an inch or an ounce.

Do Lapis Lazuli



ps este poema do yeats, onde em guerra cada homem e cada mulher acompanha heroicamente à sua própria tragédia, lembra e rejeita a ideia de que o mundo é um palco, de shakespeare; numa cidade bombardeada - numa cidade sem livre arbítrio - o mundo não é um palco, o palco é o mundo. e os personagens, com mais livre arbítrio do que os agentes, estão cheios de gaiety. e a gaiety é de uma beleza extraordinária.

Sunday, 23 October 2011

A verdade será o teu dote


Ford M. Brown, Cordelia's portion, coisa pré-rafaelita

O amor é coisa de velhos. Quero dizer que o amor impossível é coisa de velhos.

De quando chove mais do que devia


Monday, 26 September 2011

A falácia do conservadorismo



O Miguel Sousa Tavares está, na SIC, a defender as touradas, digo, está a atirar-se àqueles que são contra as touradas - gente que diz ser, basicamente, ignorante. Como primeiro argumento, esgrime Miguel que os pintores espanhóis sempre pintaram touradas, e que os anti-touradas deviam questionar-se porquê. Não sei o que responderia Picasso, talvez o Woody Allen saiba, ou aquela senhora que fala com os se foram. A seguir remata com a velha questão pragmática de justificar, não os meios pelos fins, mas os fins pelos começos: como as touradas são a única motivação para criar touros, se terminam as primeiras, acabam-se os últimos. O mesmo, diz ele, aconteceria com a proibição da caça. Esta falácia, de justificar o fim pelo começo, é também a que está nas cabeças que dizem que tornar despedimentos mais baratos e fáceis é política que levará a melhor e mais emprego. 

Ou que a razão pela qual eu não deveria mudar de canal, e deixar de ouvir MST, é porque, ao fazê-lo, estou a contribuir para o tirarem do ar, e se o tiram do ar eu terei menos motivos para mudar de canal. Que era o que queria fazer para começar.

Saturday, 24 September 2011

O que hoje penso de Woody Allen

A pergunta se um novo filme de Woody Allen é bom ou mau é um erro. Woody Allen, onde, na condição de alguém que ultrapassou os 30 anos, me alinho, não é o homem mais denso que anda para aí, mas é o mais compacto - quer dizer, imagine-se um ideia leve e pouco densa que é imperceptível quando liberta numa sala de boas dimensões, mas que se mantém intacta quando as dimensões da sala se tornam mais e mais reduzidas. A pouco e pouco vamos tendo menos acessório para reparar, e a ideia torna-se mais óbvia. O Woody Allen de hoje é a sala mais pequena onde ele próprio já guardou a sua ideia, e não tenho dúvidas que nos continuará no futuro a brindar com exercícios de contorcionismo mais extremos, cinicamente expondo que a sua ideia é tão pequena que vai caber numa sala do tamanho de um átomo, sem que sofra qualquer mutação - vai tornar-se pura, sem ar que nela se deposite, sem precisar de actores ou actrizes e muito menos de uma Nova Iorque do tamanho de uma Europa. Perguntar se um filme do Woody Allen é profundo ou não é como perguntar aos miúdos se um copo de 20 cl. alto consegue conter mais ou menos água do que um copo de 20 cl. muito baixo. Todos os filmes têm a mesma capacidade, só que se estão a tornar cada vez mais fininhos, cada vez mais translúcidos, onde cada vez mais só cabem as sombras dos actores, uma coisa que lhes tira a face, as expressões, onde a excentricidade sexual da Scarlett pode ser trocada por um tipo que fez um filme chamado wedding crashers, onde Roma pode trocar Paris e pode trocar Nova Iorque, e nada disso realmente interessa porque o verdadeiro actor, e local, é imutável e é Woody Allen. A ideia, essa, parece-me, e é ridículo expô-la, porque sinto que só vou saber exactamente qual é no seu último filme, é esta: o amor acontece por acaso, quando já não há mais nada que possa acontecer. É uma ideia paradoxal, e espero percebê-la melhor nos próximos filmes.

Sunday, 18 September 2011

Economia necessariamente política


Quando os bancos dão o nome às salas de aulas de algumas faculdades de economia em Portugal - se tivermos em conta que já davam o que era ensinado, assumir a paternidade era algo que se impunha -, vale a pena ver este vídeo. A economia é política, e o resto é para os engenheiros e agiotas.

(visto hoje no eixo do mal)

Saturday, 27 August 2011

A Special One


Friday, 26 August 2011

Têm a certeza que não querem mais dinheiro?



Desde pelo menos a primeira guerra mundial, onde os proletários dos vários países tomaram armas para se combaterem entre si e não as classes com que se confrontavam no processo produtivo, que a esquerda enfrenta e procura explicar o porquê de nem sempre aqueles por quem se diz bater estarem do seu lado.

Parece-me, no entanto, uma deliciosa novidade esta de os ricos dos outros países ultrapassarem a retórica neoliberal portuguesa pela esquerda, e forçarem, a muito contragosto, o nosso governo a aceitar discutir a imposição de um imposto à riqueza. É preciso lembrar que esta coligação ganhou as eleições sob um entendimento muito particular de que, se aos empresários fosse entregue mais dinheiro, estes iriam poder gerar mais emprego e fazer a economia crescer. Este entendimento é aquele que está na base da proposta de descida significativa na TSU, mas também na redistribuição agressiva de rendimento dos mais pobres para os mais ricos que este governo tem levado a cabo desde que tomou posse - mesmo que, ressalva seja feita, esta última não tenha sido acompanhada por um discurso que explicite a crença de que dar dinheiro aos mais ricos é bom para a economia, ficando assim a ideia de que talvez até já se aceite tratar-se apenas de uma preferência ideológica. Ora agora são os próprios ricos a dizer que a solução para a crise não passa por terem mais, mas sim menos dinheiro. É delicioso, a sério. Imagino muito economista académico com dificuldades em desenhar os exames para a época especial de Setembro, mas a parte mais deliciosa é mesmo a de imaginar os assessores do Álvaro à nora.

Claro que se pode alegar que o governo estava a pensar nos empresários das PMEs, e não nos accionistas das grandes empresas - talvez os primeiros não sejam sequer ricos, e não venham sequer a pagar o possível imposto. Mas então seria de esperar que se tivesse falado em excluir as grandes empresas do jacktop da redução na TSU, coisa que nunca ouvi.

Tuesday, 9 August 2011

Londres


Há várias explicações concorrentes para o que está a acontecer em Londres. Seria no entanto honesto esperar, destas explicações, que incluam alguma referência a subúrbios em Londres, atendendo a que, digamos, é lá que estão a acontecer os eventos de que se fala. Proponho aliás um exercício interessante: contar o número de vezes que, nas crónicas e nos posts de blogues de direita em Portugal, aparece referência ao nome de um subúrbio concreto em Londres, e o número de vezes em que surgem as palavras vandalismo e roubo. É goleada, na certa.

No entanto, esses opinadores não podem propriamente defender que a geografia não tem importância para a avaliação moral do problema, simplesmente por estarmos perante uma apropriação indevida de bens privados e/ou de violência "irracional": certamente, levarei esses opinadores a concordar que a avaliação moral da apropriação de bens privados e violência "irracional" deverá ser devidamente contextualizada numa narrativa que se situe numa dada geografia e num dado período histórico. O que dizer, por exemplo, da apropriação e violência do expansionismo ultramarino português no sec. XV, ou da apropriação de terras nas enclosures do sec. XVIII, e subsequente desenraizamento dos camponeses que as trabalhavam e que passaram a engrossar as fileiras de mão-de-obra barata nas fábricas, ou da ocupação particularmente violenta por parte de um povo sem terra – Israel - de uma terra que já tinha já um povo? Certamente, será necessário contextualizar e incluir uma referência específica a um local e a um período. Pois bem. O local são alguns subúrbios londrinos.

Seria assim importante que alguns comentadores soubessem não só a localização dos eventos sobre os quais opinam, como que pelo menos se familiarizassem com as dinâmicas que se foram gerando na sociedade britânica e que determinaram quem exactamente vive nos subúrbios em causa. Sim, as pessoas a quem eles se sentem já à vontade para qualificar de "escumalha", "ladrões", "vândalos", mas que nem se preocupam muito em saber quem são.

Ora eu, que não sei explicar o que está a acontecer, pelo menos sei o que está a acontecer: são fenómenos de violência que acontecem nos subúrbios londrinos (e noutras cidades, mas eu nunca lá vivi, em muitas delas nem sequer estive, e por isso não me apraz falar sobre elas) e que envolvem alguns dos seus habitantes. Não tenho explicação para o que está a acontecer, mas rejeito qualquer explicação que, em alguma parte, não aceite esta realidade e que não permita enquadrar as dinâmicas geográficas e sociais que geraram a população que habita nesses subúrbios londrinos. Nomeadamente, rejeito qualquer teoria que não inclua estes factos:

Nos últimos vinte anos, o Reino Unido tem assistido a uma desindustrialização dramática, conforme pode ser visto no gráfico abaixo, que contrasta a evolução do peso da indústria no PIB britânico e a de outros países comparáveis.


Esta desindustrialização foi acompanhada por um conjunto de políticas que a favoreceram sistematicamente - os serviços não emergiram espontaneamente na economia britânica, como uma vantagem comparativa à Ricardo. Em particular, destacaria dessas políticas a política monetária. O gráfico abaixo mostra a evolução das taxas de juro de refinanciamento do Banco de Inglaterra, comparando com as do Banco Central Europeu, e mostra como sistematicamente se praticavam juros significativamente mais elevados - até à crise financeira.



Em paralelo com juros mais elevados, e tal como seria de esperar, a libra durante os anos prévios à crise esteve significativamente sobre-avaliada. O gráfico abaixo contrasta, para um horizonte temporal mais curto (o google finance não mostra para trás de 2004), o valor da libra nos tais anos de juros elevados com aquilo que a libra vale desde 2008, ano em que se descobriu que afinal o sector financeiro era mais gato que lebre.



Uma libra demasiado forte retirou sistematicamente competitividade às exportações britânicas, enquanto pressionava em baixa a inflação de bens importados, o que permitiu que, por exemplo, alguma população mais privilegiada comprasse televisões baratas - sim, aqueles objectos que agora estão a ser roubadas e destruídos nos subúrbios - e fizesse férias no estrangeiro. Quem foram estes privilegiados? Não foram os 10% mais pobres, certamente, conforme pode ser visto no gráfico abaixo, que mostra a evolução da riqueza por classe de rendimento (quartil), entre 1998 e 2008 - os da esquerda são os mais pobres, os da direita os mais ricos. Nesta década, a economia britânica gerou um aumento global de riqueza de cerca de 33% - mas os 10% mais pobres tiveram uma redução de cerca de 12% no nível de vida. Na verdade, nenhum classe de rendimento teve um aumento de riqueza ao nível do aumento de riqueza gerado na economia, excepto os 10% mais ricos, que viram o seu rendimento crescer cerca de 38%.


A desindustrialização britânica e o aumento da desigualdade de rendimento tiveram como paralelo um crescimento avassalador do sector financeiro na economia britânica (em termos reais e metafóricos, dado que dificilmente a forte cultura sindicalista britânica, já muito amansada com Thatcher, teria facilitado esta assimetria).

A economia, cada vez mais centrada na City (o bairro financeiro de Londres), corria bem até 2007, e os bónus no sector financeiro multiplicavam-se - em 2005, por exemplo, cerca de 3000 bancários da City receberam bónus de pelo menos 1 milhão de libras. Nada disto é errado, dizem, porque, afinal, a economia deve permitir premiar os melhores. E os melhores, que recebiam muito dinheiro, compraram casas - as casas melhores. As casas WC, salvo seja, de Chelsea, Knigthsbridge, Kensington, multiplicaram alguns dígitos em valor em poucos anos. O gráfico abaixo mostra a evolução do preço médio das casas em Londres nos últimos anos. O valor médio passou de cerca de 150 mil libras em 2000 para 300 mil em 2008 - dá para ter uma ideia sobre o que aconteceu às casas dos bairros mais caros. Relembro, entretanto, o gráfico que mostrava a evolução do rendimento por classe: temos portanto uma duplicação no valor das casas, e uma redução em 12% no rendimento dos 10% mais pobres. É fácil perceber para onde foram arrastados estes infelizes que, por não serem suficientemente bons.




Como bons eram, de facto, os rapazes que trabalhavam na City. Em 2008, com a crise financeira, alguns destes bons (e os melhores) perderam o emprego, porque os bancos para os quais trabalhavam os melhores não aguentaram um ou dois meses de crise financeira. Outros deixaram de receber bónus de 1 milhão de libras, e passaram a receber um pouco menos. A maioria, segundo consta, continua a safar-se bem.

Poder-se-ia também falar da política de imigração perseguida pelo governo Labour e, agora, continuada pelo governo conservador, e o modo como esta política condiciona os ordenados mais baixos. Também se podia falar da desregulação que permitiu que o sector financeiro crescesse deste modo e pagasse os bónus que pagava - mas já se falou o suficiente disso.

E repito, finalmente, mas apenas para que surja neste post uma referência específica a um subúrbio londrino: a geografia importa, e um roubo na City faz muito menos barulho do que um roubo no Morissons de Peckham.

Wednesday, 3 August 2011

Usura



Lhereux era mercador astuto de roupas e perfumes em Yonville, uma pequena terra da província. E era versado em letras e outros instrumentos de crédito. Lhereux foi vestindo e perfumando Emma como a uma burguesa, e Emma, tão próxima de o ser, ficava cada vez mais em dívida para com Lhereux. Quando o dinheiro começou a falhar, Emma tentou fazer do marido cirurgião, mas o marido só sabia fazer sangrias, e acabou por gangrenar a perna do seu primeiro e último paciente. Exasperada e cada vez mais incapaz de amar o seu esforçado marido, Emma obtém deste procuração dando-lhe todos os poderes sobre os seus bens, seguindo conselho dado por Lhereux. Investida do novo poder, Emma vendeu uma pequena propriedade, e com o dinheiro comprou mais vestidos, às escondidas do marido, que continuava a fazer com as sangrias o dinheiro dos dois. Era com esses vestidos que Emma traia o pobre homem. Quando o dinheiro tornou a faltar, Lhereux, garantindo que não a podia financiar directamente, afirmou conhecer um banqueiro na capital que seria capaz de lhe descontar a sua letra, mediante um preço. Quando chegou nova letra, o banqueiro foi pessoalmente a Yonville para lhe penhorar os bens.

Lhereux e o banqueiro ficaram-lhe com tudo a preço de saldo, e parece que os amigos destes passarão férias na casa que um dia foi de Emma e de Carlos.

Tuesday, 2 August 2011

Imposto

Vou abordar um assunto cujos contornos em larga escala desconheço, e esta é uma prerrogativa que me assiste enquanto blogger. Julgo que havia duas formas de o estado alienar o BPN: por concurso público ou por leilão. Na primeira hipótese os potenciais compradores enviam propostas concretas, nas quais se comprometem com objectivos específicos, preferencialmente quantificados e balizados temporalmente, e oferecem um preço final, ficando do lado do estado a tarefa de hierarquização das propostas sob um conjunto de critérios pré-definidos. A segunda hipótese consiste num caso particular do concurso público, onde o único critério de avaliação é o preço final. O estado português optou pela primeira hipótese, não me parecendo que tenha sido discutida a segunda. Naturalmente, a primeira hipótese gera sempre menos dinheiro do que a segunda, e gerará tanto menos dinheiro quanto mais onerosas forem as obrigações a que se comprometeu o candidato vencedor. Esta diferença - entre o valor de um concurso público e o valor que teria sido gerado por um leilão bem desenhado - é na prática um imposto sobre os contribuintes. O benefício deste imposto para a sociedade é dado pelo valor que as obrigações e os compromissos assumidos têm para a mesma. No entanto, estas obrigações e compromissos só terão valor para a sociedade se as obrigações e compromissos subjacentes às regras do Banco de Portugal, que se aplicam aos bancos, não forem já suficientes para acautelar o bem-estar geral. Ou, no caso de as obrigações e compromissos dizerem respeito a objectivos de política bancária, só terão valor se não puderem ser assumidos eficientemente pela CGD. Logo, somos confrontados com duas hipóteses: ou o benefício para a sociedade é nulo, e portanto este procedimento entregou dinheiro dos contribuintes a troco de benefícios privados, ou este custo para a sociedade é um preço a pagar pela existência de uma regulação (e política bancária) deficiente e insuficiente.

Saturday, 30 July 2011

Limão

Segundo o DE, o BCP vai oferecer um desconto aos seus clientes que queiram pagar antecipadamente a totalidade do seu crédito à habitação. Esta, à partida, é uma medida sensata: obtém liquidez e aumenta o rácio de solvabilidade do banco. Mas não é. É apenas desespero. Como os clientes capazes de antecipar as suas dívidas são os mais solventes, o BCP ficará assim com uma pool de clientes com menor probabilidade de pagar, ou seja, o capital que o BCP pode esperar obter dos seus actuais devedores irá diminuir - enquanto o juro médio, que inclui os spreads contratualizados, irá subir. O BCP obtém assim liquidez a curto prazo, mas com uma "taxa de juro" altíssima a longo prazo - o longo prazo onde talvez esta administração já lá não esteja, e onde decerto o oxigénio do BCE não estará. Esta é a cofidização do BCP.

Sunday, 24 July 2011

A economia anorética



O governo de coligação britânico lembra-me uma anorética que, olhando-se no espelho, lamenta-se: "estou mesmo gorda, não estou?"

Depois de uma dieta de fúria, levando a cortes na despesa e no emprego público absolutamente draconianos, em face a níveis de despesa e dívida públicas perfeitamente limitados em comparação com a realidade europeia e ocidental, a economia britânica encontra os primeiros sinais de uma anemia galopante. A surpresa com que os sintomas têm sido recebidos pelo ministro das finanças assemelha-se às linhas do Guardian de ontem, que diziam que ainda estava por esclarecer a causa da morte de Amy Winehouse.

Ideologia

Porque é que não se exige às altas personalidades cristâs que repudiem o acto de terrorismo na Noruega?

Tuesday, 19 July 2011

Política

Tive hoje o prazer de assistir na Almedina ao lançamento do "Portugal e a Europa em crise", um livro organizado pelo João Rodrigues e pelo José Reis que colige vários artigos escritos por boa gente no Monde Diplomatique nos últimos três anos.

O João Cravinho foi convidado e falou da crise em termos que me pareceram geralmente acertados, com uma excepção. Disse que não considerava que o euro fosse um problema válido para Portugal, porque, no seu entender, a desvalorização monetária é apenas uma droga que cria dependência crescente e não resolve problema nenhum. Rematou qualquer coisa como nenhum país ter conseguido usar eficazmente o câmbio para obter ganhos a longo prazo. Em vez do euro, apontou a globalização e a emergência da China industrial, com os famosos custos unitários de trabalho muito baixos, como o fenómeno que justifica boa parte da crise actual em Portugal. Ora estas duas ideias parecem-me uma contradição em termos. A emergência de uma China industrial é objectivo activamente perseguido através de uma política cambial extremamente agressiva, que consiste em manter o yuan subvalorizado. Não só existem países que claramente conseguiram utilizar a política cambial em proveito próprio, como não se pode qualificar objectivamente os salários de baixos sem se perceber que são baixos também por serem medidos em euros ou em dólares, mantidos artificialmente caros.

É preciso perceber que a política cambial é apenas outro nome para política monetária, e que monetária é apenas um adjectivo para Política.

Monday, 18 July 2011

Saturday, 16 July 2011

Queda de um Anjo


E eis que um economista que se diz ser keynesiano lembrou-se da política monetária. O Sr. Presidente da República defende que o euro deve enfraquecer (perante o dólar americano, presume-se), para, tornando as exportações dos países europeus mais baratas, fomentar o crescimento económico destes países. É bom de ver que esta posição pública por parte de um chefe de estado europeu, que saúdo, entra em directo conflito com o disposto no Tratado de Maastricht, que o actual Presidente da República assinou em 1992, enquanto Primeiro Ministro de Portugal. Este Tratado, que é um trabalho seminal em matéria de ortodoxia monetária, coloca no pedestal (enshrines) o estatuto de independência do Banco Central Europeu, como garantia de que a futura área do euro beneficiaria de uma estabilidade de preços, conforme pode ser lido num discurso transcrito no próprio site do banco. Independência, para quem teve a sorte de não ter passado quatro anos em bancos de escolas de economia, quer dizer independência do poder político, ou seja, o Conselho de Administração do banco tem de ser imune às vontades dos decisores políticos europeus, respondendo apenas perante critérios técnicos pré-definidos. No caso do BCE, o critério pré-definido é apenas um, ou seja, a estabilidade dos preços, acreditando-se que a política monetária não deve tentar fomentar o crescimento económico, porque tal degeneraria apenas em inflação.

Estou certo que esta revisão doutrinária representa a queda de um anjo do pedestal da ortodoxia económica, o que levará a um questionamento por parte da profissão sobre as vantagens desta mesma "independência" - quase sempre, a independência de uma instituição perante o estado geralmente aumenta a sua dependência perante interesses privados, e esta parte geralmente esquecem de ensinar.

Finalmente, e reiterando que saúdo o que o Sr. Presidente disse publicamente, considero que a questão da força do euro é apenas parte do problema, escondendo, na verdade, outra questão que julgo pelo menos tão relevante. Cerca de 75% do valor das exportações portuguesas tem como origem países da União Europeia. Não sei exactamente qual a proporção que tem como origem os países que aderiram ao euro, mas presumo que seja muito próxima desses 75%. Uma desvalorização do euro beneficiaria, portanto, 25% das exportações portuguesas. Se imaginarmos que uma desvalorização de 20% do euro aumentaria as exportações portuguesas para fora da Europa em 20%, então estas exportações passariam de 25% para 30% do total. Isto não teria um impacto significativo. O problema da periferia europeia é em boa parte um problema de dumping salarial por parte da Alemanha, como defendi aqui. Este dumping implica que o "escudo" está sobrevalorizado perante o "marco", e aí sim, parece-me, reside boa parte da chave do problema. Que se resolve com a outra "perna" da política Keynesiana, ou seja, uma política orçamental (e industrial) forte por parte dos estados europeus que, no contexto de uma moeda única, é a política monetária mais séria que temos.