Monday, 8 August 2011
Wednesday, 3 August 2011
Usura

Lhereux era mercador astuto de roupas e perfumes em Yonville, uma pequena terra da província. E era versado em letras e outros instrumentos de crédito. Lhereux foi vestindo e perfumando Emma como a uma burguesa, e Emma, tão próxima de o ser, ficava cada vez mais em dívida para com Lhereux. Quando o dinheiro começou a falhar, Emma tentou fazer do marido cirurgião, mas o marido só sabia fazer sangrias, e acabou por gangrenar a perna do seu primeiro e último paciente. Exasperada e cada vez mais incapaz de amar o seu esforçado marido, Emma obtém deste procuração dando-lhe todos os poderes sobre os seus bens, seguindo conselho dado por Lhereux. Investida do novo poder, Emma vendeu uma pequena propriedade, e com o dinheiro comprou mais vestidos, às escondidas do marido, que continuava a fazer com as sangrias o dinheiro dos dois. Era com esses vestidos que Emma traia o pobre homem. Quando o dinheiro tornou a faltar, Lhereux, garantindo que não a podia financiar directamente, afirmou conhecer um banqueiro na capital que seria capaz de lhe descontar a sua letra, mediante um preço. Quando chegou nova letra, o banqueiro foi pessoalmente a Yonville para lhe penhorar os bens.
Lhereux e o banqueiro ficaram-lhe com tudo a preço de saldo, e parece que os amigos destes passarão férias na casa que um dia foi de Emma e de Carlos.
Tuesday, 2 August 2011
Imposto
Vou abordar um assunto cujos contornos em larga escala desconheço, e esta é uma prerrogativa que me assiste enquanto blogger. Julgo que havia duas formas de o estado alienar o BPN: por concurso público ou por leilão. Na primeira hipótese os potenciais compradores enviam propostas concretas, nas quais se comprometem com objectivos específicos, preferencialmente quantificados e balizados temporalmente, e oferecem um preço final, ficando do lado do estado a tarefa de hierarquização das propostas sob um conjunto de critérios pré-definidos. A segunda hipótese consiste num caso particular do concurso público, onde o único critério de avaliação é o preço final. O estado português optou pela primeira hipótese, não me parecendo que tenha sido discutida a segunda. Naturalmente, a primeira hipótese gera sempre menos dinheiro do que a segunda, e gerará tanto menos dinheiro quanto mais onerosas forem as obrigações a que se comprometeu o candidato vencedor. Esta diferença - entre o valor de um concurso público e o valor que teria sido gerado por um leilão bem desenhado - é na prática um imposto sobre os contribuintes. O benefício deste imposto para a sociedade é dado pelo valor que as obrigações e os compromissos assumidos têm para a mesma. No entanto, estas obrigações e compromissos só terão valor para a sociedade se as obrigações e compromissos subjacentes às regras do Banco de Portugal, que se aplicam aos bancos, não forem já suficientes para acautelar o bem-estar geral. Ou, no caso de as obrigações e compromissos dizerem respeito a objectivos de política bancária, só terão valor se não puderem ser assumidos eficientemente pela CGD. Logo, somos confrontados com duas hipóteses: ou o benefício para a sociedade é nulo, e portanto este procedimento entregou dinheiro dos contribuintes a troco de benefícios privados, ou este custo para a sociedade é um preço a pagar pela existência de uma regulação (e política bancária) deficiente e insuficiente.
Saturday, 30 July 2011
Limão
Segundo o DE, o BCP vai oferecer um desconto aos seus clientes que queiram pagar antecipadamente a totalidade do seu crédito à habitação. Esta, à partida, é uma medida sensata: obtém liquidez e aumenta o rácio de solvabilidade do banco. Mas não é. É apenas desespero. Como os clientes capazes de antecipar as suas dívidas são os mais solventes, o BCP ficará assim com uma pool de clientes com menor probabilidade de pagar, ou seja, o capital que o BCP pode esperar obter dos seus actuais devedores irá diminuir - enquanto o juro médio, que inclui os spreads contratualizados, irá subir. O BCP obtém assim liquidez a curto prazo, mas com uma "taxa de juro" altíssima a longo prazo - o longo prazo onde talvez esta administração já lá não esteja, e onde decerto o oxigénio do BCE não estará. Esta é a cofidização do BCP.
Sunday, 24 July 2011
A economia anorética
O governo de coligação britânico lembra-me uma anorética que, olhando-se no espelho, lamenta-se: "estou mesmo gorda, não estou?"
Depois de uma dieta de fúria, levando a cortes na despesa e no emprego público absolutamente draconianos, em face a níveis de despesa e dívida públicas perfeitamente limitados em comparação com a realidade europeia e ocidental, a economia britânica encontra os primeiros sinais de uma anemia galopante. A surpresa com que os sintomas têm sido recebidos pelo ministro das finanças assemelha-se às linhas do Guardian de ontem, que diziam que ainda estava por esclarecer a causa da morte de Amy Winehouse.
Tuesday, 19 July 2011
Política
Tive hoje o prazer de assistir na Almedina ao lançamento do "Portugal e a Europa em crise", um livro organizado pelo João Rodrigues e pelo José Reis que colige vários artigos escritos por boa gente no Monde Diplomatique nos últimos três anos.
O João Cravinho foi convidado e falou da crise em termos que me pareceram geralmente acertados, com uma excepção. Disse que não considerava que o euro fosse um problema válido para Portugal, porque, no seu entender, a desvalorização monetária é apenas uma droga que cria dependência crescente e não resolve problema nenhum. Rematou qualquer coisa como nenhum país ter conseguido usar eficazmente o câmbio para obter ganhos a longo prazo. Em vez do euro, apontou a globalização e a emergência da China industrial, com os famosos custos unitários de trabalho muito baixos, como o fenómeno que justifica boa parte da crise actual em Portugal. Ora estas duas ideias parecem-me uma contradição em termos. A emergência de uma China industrial é objectivo activamente perseguido através de uma política cambial extremamente agressiva, que consiste em manter o yuan subvalorizado. Não só existem países que claramente conseguiram utilizar a política cambial em proveito próprio, como não se pode qualificar objectivamente os salários de baixos sem se perceber que são baixos também por serem medidos em euros ou em dólares, mantidos artificialmente caros.
É preciso perceber que a política cambial é apenas outro nome para política monetária, e que monetária é apenas um adjectivo para Política.
Monday, 18 July 2011
Saturday, 16 July 2011
Queda de um Anjo
E eis que um economista que se diz ser keynesiano lembrou-se da política monetária. O Sr. Presidente da República defende que o euro deve enfraquecer (perante o dólar americano, presume-se), para, tornando as exportações dos países europeus mais baratas, fomentar o crescimento económico destes países. É bom de ver que esta posição pública por parte de um chefe de estado europeu, que saúdo, entra em directo conflito com o disposto no Tratado de Maastricht, que o actual Presidente da República assinou em 1992, enquanto Primeiro Ministro de Portugal. Este Tratado, que é um trabalho seminal em matéria de ortodoxia monetária, coloca no pedestal (enshrines) o estatuto de independência do Banco Central Europeu, como garantia de que a futura área do euro beneficiaria de uma estabilidade de preços, conforme pode ser lido num discurso transcrito no próprio site do banco. Independência, para quem teve a sorte de não ter passado quatro anos em bancos de escolas de economia, quer dizer independência do poder político, ou seja, o Conselho de Administração do banco tem de ser imune às vontades dos decisores políticos europeus, respondendo apenas perante critérios técnicos pré-definidos. No caso do BCE, o critério pré-definido é apenas um, ou seja, a estabilidade dos preços, acreditando-se que a política monetária não deve tentar fomentar o crescimento económico, porque tal degeneraria apenas em inflação.
Estou certo que esta revisão doutrinária representa a queda de um anjo do pedestal da ortodoxia económica, o que levará a um questionamento por parte da profissão sobre as vantagens desta mesma "independência" - quase sempre, a independência de uma instituição perante o estado geralmente aumenta a sua dependência perante interesses privados, e esta parte geralmente esquecem de ensinar.
Finalmente, e reiterando que saúdo o que o Sr. Presidente disse publicamente, considero que a questão da força do euro é apenas parte do problema, escondendo, na verdade, outra questão que julgo pelo menos tão relevante. Cerca de 75% do valor das exportações portuguesas tem como origem países da União Europeia. Não sei exactamente qual a proporção que tem como origem os países que aderiram ao euro, mas presumo que seja muito próxima desses 75%. Uma desvalorização do euro beneficiaria, portanto, 25% das exportações portuguesas. Se imaginarmos que uma desvalorização de 20% do euro aumentaria as exportações portuguesas para fora da Europa em 20%, então estas exportações passariam de 25% para 30% do total. Isto não teria um impacto significativo. O problema da periferia europeia é em boa parte um problema de dumping salarial por parte da Alemanha, como defendi aqui. Este dumping implica que o "escudo" está sobrevalorizado perante o "marco", e aí sim, parece-me, reside boa parte da chave do problema. Que se resolve com a outra "perna" da política Keynesiana, ou seja, uma política orçamental (e industrial) forte por parte dos estados europeus que, no contexto de uma moeda única, é a política monetária mais séria que temos.
Thursday, 14 July 2011
Tuesday, 12 July 2011
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