Thursday, 7 July 2011

Dificuldade conceptual

Encontro alguma dificuldade em conciliar uma crítica às agências de rating e uma crítica à política económica conservadora que é adoptada pelo governo português, e aplaudida pela europa. Se a redução na despesa e a imposição de medidas de austeridade diminuem a probabilidade dos países periféricos pagarem a sua dívida, como acredito ser auto-evidente, então as agências de rating terão alguma razão em considerar que a possibilidade de Portugal entrar em default aumentou consideravelmente - mesmo que não sejam essas as razões que apresentam.

Desemprego e Dumping




O gráfico acima, publicado anteontem pelo economist, mostra como a Alemanha foi o único país europeu onde o desemprego na população jovem entre os 15 e os 24 anos diminuiu nos últimos três anos. É uma ilustração das consequências práticas de uma política de dumping industrial que a Alemanha tem seguido desde a entrada em funcionamento do euro, e que tem contribuído para a desvalorização monetária real na Alemanha e que está, junto com outros factores, na base da crise do euro. A redução no desemprego jovem na Alemanha é espelho do aumento do desemprego jovem nos países periféricos, tal como a redução nos salários reais dos trabalhadores alemães é espelho dos défices destes países.

Saturday, 2 July 2011

Impostos e outras touradas

O imposto de 50% sobre a componente acima do ordenado mínimo do 14º mês dos portugueses parece que gerará aos cofres do estado 800 milhões de euros. Ora a redução em quatro pontos percentuais da Taxa Social Única (TSU) parece que poderá gerar uma redução na receita do estado de 1600 milhões de euros - ou seja, o dobro. Quando se diz que esta solução fiscal é de último recurso, diz-se pouco. Esta solução é de último recurso porque há outra solução que não tem recurso: a de reduzir a contribuição dos patrões para a segurança social dos seus empregados. Ninguém a questiona, e aparentemente ninguém se lembra dela quando se fala no aumento de impostos sobre o trabalho.

Na verdade, e apenas para que os empregadores recebam 1600 milhões de euros, os portugueses pagam 800 milhões este ano, e pagarão os outros 800 milhões mais à frente - por enquanto, este valor vai acumulando na dívida pública, que já anda bem cheiinha. Esta é uma opção política que significa objectivamente uma transferência de rendimento entre o trabalho e o capital. Não se trata de uma opção por aumentar a receita e reduzir a despesa, controlando o défice público, porque o aumento de impostos é totalmente anulado (ficando ainda aquém) pela diminuição na receita que é originada com a redução na TSU.

Esta medida política é a demissão de qualquer análise económica séria sobre a natureza do problema que enfrentamos: num momento em que o desemprego se ultrapassa a si mesmo, e a economia entra em recessão, retira-se dinheiro de quem o gasta mais e pode revitalizar a economia, e dá-se a quem ou não vai gastar o dinheiro, poupando-o, ou, se o fizer, será em bens de luxo importados. É a velha questão das propensões marginais ao consumo e do multiplicador de Keynes, particularmente bem explanado por Michal Kalecki, e para que não percebeu nada do que eu disse desde o último ponto final, não está sozinho, neste governo também ninguém percebe.

Um governo que leva a cabo uma transferência desta magnitude apenas com a ténue esperança de que as empresas serão mais produtivas e venderão produtos a preços mais baixos, quando aliás toda a experiência foi que ganhos em produtividade (eufemismo em Portugal para pagar menos aos empregados) não têm tido qualquer efeito ao nível dos preços que se praticam, significa ideologia à solta. Cuidado.

Da ideologia

O blogger DBH, que escreve no blog 31 da Armada, confessa-se surpreendido por João Miranda e LR, bloggers do Blasfémias, serem tão claros na sua opção pela privatização total, absoluta e imediata da RTP. Como diz, nada deveria sobrar, e conclui que esta posição demonstra que a questão é ideológica e não é de mera preocupação orçamental.

O que é importante perceber é que, para que a questão da privatização da RTP fosse orçamental, já teria de ser ideológica. Ao dinheiro não se pede que pense.

Thursday, 23 June 2011

Cocaína



Esta tabela com preços da cocaína em vários países ocidentais, publicada pelo economist, parece mostrar como é a oferta que determina o preço da droga e não a procura. O nível dos preços parece não ter qualquer relação com o nível do poder de compra de cada país: o Reino Unido é o país com preços mais baixos, a seguir vem a Holanda, depois Portugal, depois Bélgica, depois Suiça, etc. Além disso, está também des-correlacionado com a proporção de população que consome cocaína, à direita.

Wednesday, 22 June 2011

O real problema

O Governo Alemão propõe uma descida de cerca de 10 mil milhões de euros em impostos para as classes de rendimentos média e baixa. Esta medida pode assemelhar-se, à vista desatenta, como um estímulo à procura - e não me custa acreditar que será assim apresentada. Temos uma situação de crise económica em alguns dos países para os quais a Alemanha exporta, e é necessário estimular a procura doméstica para continuar a garantir níveis elevados de procura agregada.

Mas se a medida é genuinamente do lado da procura, porque é que ela não é feita através da política monetária, ou seja, porque é que o Banco Central Europeu não imprime mais dinheiro, em vez de andar a anunciar que pretende subir a taxa de juro de refinanciamento, em face à sua preocupação com os níveis dos preços registados na zona euro (leia-se, Alemanha)? Afinal, iria beneficiar todos os países, incluindo, e especialmente, os países periféricos.

Esta medida não é do lado da procura, é antes um complemento lógico a uma estratégia centrada na oferta e que tem gerado tão bons frutos. A Alemanha, desde a criação no euro, e com o apoio explícito dos sindicatos, tem sistematicamente restringido as subidas nos salários dos seus trabalhadores, mesmo em face a ganhos importantes de produtividade. O gráfico abaixo mostra a evolução, por um lado, dos custos unitários do trabalho, e, por outro, da produtividade (medida em PIB per capita). Ambas as variáveis assumem valores nominais, com base (100) em 2001.


Fonte: Eurostat

Como é visível, os salários (linha azul) não têm acompanhado os ganhos de produtividade (linha vermelha). Esta é a principal explicação para os excedentes na balança comercial registados pela Alemanha, que têm, como identidade contabilística, espelho em parte dos défices crónicos e na subsequente dívida dos países periféricos da zona do euro. O sucesso comercial da Alemanha foi conseguido em boa parte com base no sacrifício dos trabalhadores alemães, cuja contribuição para o aumento da produção nacional não foi devidamente compensada. Este sacrifício, que foi aceite, está a ser finalmente compensado através de uma redução nos impostos pagos pela classe baixa e média. A estratégia é assim simples: Primeiro cria-se uma união monetária, impedindo os países que comercializam com a Alemanha de desvalorizar as suas moedas, o que tornaria os produtos alemães relativamente mais caro e, portanto, menos apetecíveis. Depois reduzem-se os custos de produção na Alemanha, numa estratégia alinhada com os sindicatos, severamente restringindo a capacidade competitiva dos países com os quais concorre. Depois devolve-se o dinheiro aos trabalhadores, que apoiaram esta opção. A estratégia pode ser inteligente, mas foi longe demais, e a Alemanha poderá ser vítima do seu próprio sucesso, caso o euro colapse e a dívida (que, repita-se, é o outro lado do espelho dos défices comerciais, pelo que as duas realidades são absolutamente indissociáveis) não seja paga na sua totalidade.

Para efeito comparativo, veja-se no gráfico abaixo como os salários em Portugal têm crescido ao nível da produtividade.


Fonte: Eurostat

Família

Para salvar o Natal, aliena-se o resto do ano.

Tuesday, 21 June 2011

As férias do Montesquieu

Parece que o recém-indigitado primeiro-ministro alertou os parlamentares do PSD para que não planeassem férias prolongadas para Agosto. Afinal, é o governo que supervisiona os parlamentares, ou os parlamentares que supervisionam o governo?

Ninguém parece ter-se incomodado com isto. Está bem. Afinal, estão os liberais no poder.

Monday, 20 June 2011

_

O frete

Num artigo publicado hoje no Expresso online, Daniel Oliveira identifica três razões para a conquista do poder por parte daquele que considera ser um conjunto de revolucionários de direita: A crise económica, o falhanço das anteriores lideranças do PSD e o desprezo nacional por José Sócrates. Todas são válidas, mas esquece-se da mais imediata: o chumbo do PEC por parte do Bloco de Esquerda e do PCP.

Mas que las hay

Sobre o fim-de-semana, o fim das ideologias, o fim da história e o fim do serviço público.