Sunday, 5 June 2011

A notar

Com todos os defeitos que tem, José Sócrates foi o único homem que deu uma maioria absoluta à esquerda. Será útil lembrar isso na próxima campanha para as eleições internas no PS.


Parabéns ao PSD.

Os dias das eleições

Votei na escola n.º 2 dos Olivais, a escola onde completei o ensino secundário. Uma escola que teve obras significativas nos últimos anos, e que agora tem excelentes condições, incomparáveis com as que tive quando lá estudei. É bom, não é?


Na quarta-feira estacionei o meu carro no largo do carmo, numa rua de estacionamento devidamente demarcado e provido de parquímetros - os quais não tenho de pagar visto que sou residente. Como ando pouco de carro deixo-o ficar estacionado no mesmo sítio durante dias seguidos e, geralmente, salvo uma ou outra borracha do pára-briras que algum bêbedo leva emprestada, não tenho motivos para me preocupar com a segurança do carro. Só que na sexta-feira havia comício do PSD. E quando chego ao largo do carmo vejo uma mesa bem animada com betos à paisana, fardados com t-shirt laranja e óculos ray-ban, bebericando mines justamente no local onde, pensava eu, estaria o meu carro. Perguntei ao polícia, que mostrou-se surpreendido e disse que não sabia de nada. Só lá estava para garantir a ordem. Lá acabei por saber que tinham rebocado o meu carro para outro largo, ainda dentro da zona onde tenho direito a estacionamento - foram cuidadosos e pouparam-me a uma multa. O PSD precisava do espaço para fazer o comício final de campanha e os restaurantes exigiam um espaço para as esplanadas. O PSD resolve a coisa oferecendo o que não é deles: a rua onde estava estacionado o meu carro. É curioso como um partido que, depois de uma evolução falhada, faz agora questão de mostrar que ocupa bem o seu espaço no 25 de Abril - pena é que, para ocupar este espaço, tenha de mandar fora tudo tudo o que lá estava antes. Incluindo o meu carro. Que eu saiba, isto nem sequer é legal. É mau, não é?

Friday, 3 June 2011

Duas previsões para o próximo governo

Vai durar menos de dois anos. Não irá sobreviver à re-negociação e aos termos dessa re-negociação, nem à evidência de que o cumprimento do acordo da troika até esse momento serviu apenas para reduzir salários da função pública, mudar a lei laboral e privatizar algumas empresas.

O líder da oposição, durante todo esse período, será José Sócrates. Que será o grande vencedor da eleição de Domingo, perdendo-a.

PS - Nem uma nem a outra me deixam contente.

Thursday, 2 June 2011

No Conselho de Ministros, no Parlamento e na Quadratura do Círculo

Na segunda-feira Passos Coelho terá três grandes adversários: Paulo Portas, José Sócrates e Pacheco Pereira.

Wednesday, 1 June 2011

Política

O debate político tem-se reduzido a um discurso técnico. Estes são competentes? São bons a fazer o que nós achamos que eles devem fazer? Esta é uma vitória clara do PSD - a redução da política através de uma política de redução, e passe o trocadilho fácil, que todos nós temos um Paulo Portas a assomar garganta acima, é isto que penso: para eles, o problema é simples. Devemos dinheiro porque gastámos mais do que ganhámos, e agora - até é só aritmética -, é fácil, é preciso gastar menos e produzir mais. Tudo é neutro, tudo é vazio, tudo são contas de subtrair. Há países muito bons onde já nem há discussão política, mas técnica (de qualidade desmensuradamente superior à do nosso país), e onde o estado gasta pouco dinheiro - e até se cumprem programas de instituições internacionais, uma do outro lado da rua do FMI. É na África Subsariana.

Argumento da diligência

Nogueira Leite vem agora dizer o óbvio. Mais do que questionar a honestidade intelectual de economistas que se esqueceram de dizer o óbvio nos últimos meses, acusando quem o fazia de ser radical e não ter em conta os graves prejuízos que o inevitável iria trazer ao país, (o que ajudou entretanto a produzir um estranho documento com duas versões e que prevê um conjunto de medidas com forte impacte social), é importante virar o argumento da diligência. O argumento da diligência, aventado por vários insuspeitos social democratas, incluindo Pacheco Pereira e Passos Coelho, é o de que o PSD, por ser ideologicamente mais próximo do documento da troika, é o partido mais preparado para implementar o programa. "Se" houver renegociação, e se esta implicar, por exemplo, a saída do euro e a rasura do programa da troika, e se o argumento da diligência for correcto, então o PSD deixará de ser o partido melhor para o governo nessas circunstâncias.

Monday, 30 May 2011

Ideologia

É particularmente educativa a forma como o economist hoje aborda as recentes convulsões sociais em Espanha - e a ausência destas em Itália. Quando a noção de sociedade ou de um grupo desaparece, diluída na mera soma dos indivíduos que fazem parte destes, surge uma divertida dificuldade em explicar de modo convincente qualquer revolta social. Não havendo tal coisa como sociedade, ou classes, e havendo apenas indivíduos com interesses particulares, é certo que a única razão que resta para a revolta dos jovens em Espanha é estarem contra o egoísmo dos indivíduos empregados - esse grupo que, em interesse próprio, quer garantir direitos que só desincentivam que os empregadores vão contratar novos trabalhadores. E tudo para nem sequer considerar a hipótese de que todos - empregados e desempregados - querem emprego e direitos, contra quem os quer privar de um, de outro, ou de ambos.

Thursday, 26 May 2011

Monday, 23 May 2011

Clarividência

Terminei o meu último post com a tentativa de explicar o porquê de haver tanta gente que envida tamanhos esforços a professar a inevitabilidade da renegociação, acreditando, ainda por cima, que as medidas de austeridade irão fomentar a economia.




Esta ilusão de um jogo de soma nula - a ideia de que se recuarmos o estado, mais e melhores recursos fluirão livremente para os privados criarem empregos e produzirem mais - está particularmente clarividente no artigo de hoje no nytimes do Krugman. Nasce de um preconceito ideológico, que é alicerçado em má economia - ainda que seja a economia que se ensina na maioria das faculdades.

Thursday, 19 May 2011

Os elefantes rosa

O problema lógico de que falo no post abaixo é uma pequena racha numa narrativa, construída com base numa linguagem e numa simbologia pouco sortida e muito superficial, e que serve para envolver a manada de elefantes rosa que habita a pequena sala de estar da nossa economia. Claro que essa linguagem não fecha bem, e deixa ver pelas rachas que os elefantes estão lá. Um dos símbolos mais utilizados nesta narrativa é a de que o problema do default é um problema ideológico: de um lado temos partidos que não querem honrar uma dívida gerada numa economia centrada no mercado, do outro temos partidos que querem entregar o dinheiro aos malvados dos banqueiros, sacrificando os mais pobres.

Mas o elefante do default não é uma criação ideológica - a ideologia só o está a tapar. Sem me preocupar com a questão ideológica dos partidos - que, na verdade, nem será tanto ideológica como estratégica -, interessa-me mais a falha na lógica económica que está na raíz de se acreditar que o default será resolvido com as medidas de austeridade: acredita-se que se se reduzir a despesa do estado, vai sobrar mais dinheiro para pagar a dívida. Esta ideia até parece algébrica: gasta-se menos, tem-se mais dinheiro para se pagar o que se deve. Mas não é algébrica, é apenas ideológica: menos despesa por parte do Estado gera uma menor receita por parte do outro vaso comunicante - os privados. Como Keynes demonstrou, se todos quiserem poupar ao mesmo tempo - privados e público - na verdade ninguém consegue poupar mais, a riqueza cai e a possibilidade de pagar o que se deve diminui. A posição merante ideológica tem raíz na ideia que o estado opera numa lógica de jogo de soma nula, onde absorve os recursos que poderiam estar nos privados - não gerando nenhum valor em si mesmo.

Álgebra

Parece-me que há aqui uma deficiência lógica. Paulo Portas no debate com Francisco Louçã repete algo que, em boa verdade, nem é argumento só dele: ao Portugal declarar que não paga a totalidade da dívida precipitar-se-ia a saída do euro; a saída do euro reduziria a metade o valor dos rendimentos dos portugueses e, em simultâneo, elevaria ao dobro a dívida portuguesa. Se não pagamos a totalidade da dívida, naturalmente não podemos ficar a dever o dobro (assumindo uma desvalorização de 50%). Se não pagarmos metade, por exemplo, ficaremos a dever o mesmo. A menos que estejamos a pensar apenas na dívida pública - mas por que razão não havia de haver renegociação da dívida privada?