Thursday, 5 May 2011
Monday, 2 May 2011
bin Laden e a guerra ao terror
Será importante enquadrar a morte de bin Laden, anunciada hoje, no contexto simultaneamente mais e menos abrangente da "guerra ao terror". Esta "guerra" (doravante guerra) começou com um ataque terrorista suicida, organizado por uma célula totalmente autónoma e descentralizada, que vaporizou qualquer vestígio de um inimigo. Havendo necessidade política de retaliação, tornou-se fundamental nomear um. A escolha no entanto não foi óbvia, nem se enquadrou numa lógica suficientemente sólida mesmo para o próprio povo americano: 15 dos 19 terroristas que atacaram as torres gémeas eram originários da Arábia Saudita, um estado forte que formou e forma ideólogos extremistas, mas não foi a Arábia Saudita que foi atacada pelos Estados Unidos, tendo-se optado antes pelo Afeganistão, primeiro, e depois pelo Iraque. Estes países no entanto partilham dois problemas sérios: nenhum deles, e especialmente o segundo, tem uma relação evidente e completa com os homens que atacaram as torres gémeas. Adicionalmente, em nenhum deles sucedeu uma uma vitória militar rápida e inequívoca, que ajudasse a esquecer essa ausência de ligação completa. O símbolo de bin Laden foi assim tornando-se um fetiche com poder agregador e legitimante para a guerra ao terror.
É por isto que penso que a morte de bin Laden é simultaneamente maior e menor que a guerra ao terror, sem nunca se confundir exactamente: é maior porque bin Laden tornou-se um símbolo fundamental, possivelmente o único que sobrou simultaneamente à guerra ao terror e ao ataque terrorista às torres gémeas, e, mais importante, o único que podia efectivamente ser vencido. A definição e sucesso da guerra ao terror tornou-se dependente de bin Laden; mas bin Laden também é menor, muito menor do que a guerra ao terror, que incluiu a invasão de estados soberanos onde morreram milhões de pessoas, produzindo efeitos que são ainda imprevisíveis numa geografia vasta e importante para a segurança do globo, alterando relações e equilíbrios de poder, privilegiando interesses, forçando novas definições étnicas e de inimigos regionais, num contexto onde entretanto a China, a Rússia, o Brasil, emergiram como super-potências.
Mas bin Laden não é exactamente a guerra ao terror, por menos que isso se vá tornar claro nos próximos meses. E não será claro por isto: como alguns vultos pouco recomendáveis da história do século XX professaram, a vitória - qualquer que seja, e sob que pressupostos for - tende a legitimar os vencedores. E a história dos vencedores americanos é simples: um dia nós dissemos que iamos matar bin Laden, e conseguimo-lo. Num mundo minado pela incerteza, alguma dela criada e reforçada com a guerra ao terror, alguém que consegue realizar o que promete potencia uma falsa sensação de segurança que conferirá lógica e um poder quase fetichista a uma boa parte daquilo que os americanos já fizeram e vão fazer a nível de política externa, confundido subitamente bin Laden, e a sua morte, com um momento de uma longa marcha por uma vitória legítima. Sobre o quê? Ainda vamos ver.
Tuesday, 26 April 2011
Medidas para todos
Parece que está "já em cima da mesa ... o pagamento dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos passar a ser feito em títulos do Tesouro." A ser verdade, não se entende o porquê de esta medida aplicar-se circunscritamente aos funcionários públicos. Dado que o objectivo da medida é aumentar a taxa de poupança e reduzir os custos de endividamento do estado, seria apropriado forçar também os empregadores no sector privado a comprar dívida pública e entregá-la aos seus trabalhadores, substituindo o pagamento em dinheiro dos subsídios. Deste modo não só se potenciava a redução dos custos de financiamento do estado, simultaneamente contribuindo para a maior equidade e eficiência da medida, como se cumpria parcialmente o papel da desvalorização monetária que está ausente desta equação, contribuindo para a redução nos preços sem redução nos salários nominais, o que geraria um aumento dos salários reais. Isto ainda podia ter um efeito marginal positivo sobre a taxa de desemprego.
Monday, 25 April 2011
Valorização real do escudo
Dados da OCDE
Em relação à minha pergunta de quanto teremos de desvalorizar o escudo em termos reais, uma dica acima: os custos unitários do trabalho de Portugal subiram 23% em relação aos custos alemães, de 1999 a 2009. Para manter a competitividade que tinhamos em 1999 em relação à Alemanha será preciso que o escudo desvalorize 23%.
É o mesmo reduzir salários ou desvalorizar uma moeda? Não. Mantendo-nos no euro, uma redução nos salários nominais não irá afectar os preços um para um: é possível que uma parte da redução se traduzisse em aumentos de lucros, dado o nível pouco sério de concorrência no país. Além disso, a deflação que decorreria dos salários mais baixos iria fazer com que os salários reais não se reduzisem tanto, pelo que o efeito no emprego não seria muito forte. Se a moeda caisse 23%, os preços das exportações, no momento seguinte, cairiam 23%, e os preços das importações subiriam 23%.
Monday, 18 April 2011
Sunday, 17 April 2011
Thursday, 14 April 2011
Tuesday, 12 April 2011
Requiem para o euro, ou uma metáfora simplista para a crise monetária real
O português tem um carro usado, uma coisa alimonada mas com algum trato, não sei a marca porque não percebo nada da metáfora que estou a usar. O carro no entanto dá um aborrecimento. Tem um furo no tubo de escape, na parte interior - a sério, não percebo nada do que estou a dizer -, e entra dióxido de carbono no carro. O português sabe como resolver: abrem-se as janelas, entra ar fresco e sair o ar poluído, e se é inverno, há crise - mas não há grande problema. Abre-se a janela, aguenta-se o frio, a chuva, e se cheirar mal pendura-se um daqueles tira-cheiros de baunilha. Não há problema profundo para a saúde. Apenas constipações. O carro, é claro, continua velho, não passa a ser uma bomba - mas o problema do dióxido de carbono resolve-se. E eis que de repente convencem o dono que o melhor que ele pode fazer é mandar trancar as janelas. Entrámos no euro.
Monday, 11 April 2011
Quanto devemos desvalorizar a nossa moeda?
A questão colocou-se a Carlos Salinas em 1994, e ele enganou-se na resposta - acreditava que 15% chegava, mas não chegou - gerando aquele que ficou conhecido com o efeito tequilla. Tudo me leva a crer que, na cabeça dos políticos portugueses, a resposta em quanto devemos desvalorizar o escudo peca por defeito. O escudo continua a existir, simplesmente é mais difícil de vê-lo: ele não está nos preços que estão nas etiquetas nos produtos dos nossos supermercados, está na diferença entre estes preços e os preços na Alemanha. É essa diferença o escudo: e o escudo tem crescido, e crescido, e crescido, e agora é preciso decidir em quanto é que ele cresceu a mais. A diferença é que enquanto que antes a desvalorização do escudo implicava maior produção, agora, para desvalorizar o escudo - para que a diferença entre os preços em Portugal e na Alemanha baixe -, é preciso que a produção caia, ou que os salários e os lucros se reduzam, ou um misto dos dois, o que no fundo é o mesmo e implica uma redução na riqueza nacional: em quanto é que esta riqueza tem de cair para não termos um efeito bagaço?
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